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VOZES

Entre inúmeras memórias e vozes apagadas ao longo da história estão as de mulheres que foram para a luta contra a ditadura, pegando ou não em armas, escondendo pessoas e documentos, organizando eventos, divulgando ideais contrários à repressão, batalhando por informações sobre desaparecidos, dando suporte a famílias, fazendo arte, escrevendo, contribuindo com causas sociais, resistindo, cada uma à sua maneira. Conheça algumas dessas mulheres.

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''Eu ia cumprir a tarefa como qualquer um deles. Não tinha essa de falar que a mulher era frágil, sexo frágil. A gente não corria da raia não.'' (Memórias da Resistência – SP)

ÁUREA MORETTI

Áurea Moretti nasceu na zona rural de São Joaquim da Barra, interior de São Paulo, no dia 12 de novembro de 1944. Depois do golpe civil-militar de 1964, já morando em Ribeirão Preto, também no interior paulista, fazia parte do Movimento Estudantil e filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Cursava enfermagem na Universidade de São Paulo e estagiava no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, quando decidiu integrar um grupo de resistência que se formava na cidade, as FALN - Forças Armadas de Libertação Nacional. Entrou para a liderança do grupo, aprendeu a atirar e a fazer bombas.

Em depoimentos à Comissão da Verdade (2014/2015), contou como era seu trabalho de resistência: “Tanto eu recrutava pessoas, como levava alimento para os companheiros que estavam na área rural, preparando a guerrilha rural mesmo.”

Aos 24 anos de idade, em outubro de 1969, Áurea foi presa, logo depois que outros integrantes do movimento foram identificados, detidos e torturados. No quartel de Ribeirão Preto, foi barbaramente torturada e quase morreu na prisão. À Comissão da Verdade contou sobre a ida do comando da OBAN, Operação Bandeirante, a Ribeirão Preto, para o que ela chamou de uma espécie de treinamento de técnicas de tortura, aprimoradas em pessoas como ela. “Eles vinham de São Paulo e de tudo quanto era lugar para treinar na gente. Chegava, rasgava a roupa, batia até desmaiar, eu fiquei dias e dias toda machucada por dentro. Por fora não faz mal, mas por dentro, pensando na nossa luta, nos nossos companheiros. Terrorista, comunista, não é para receber médico nem remédio, é para morrer mesmo.”

Em seu testemunho ao projeto Memórias da Resistência, em 2012, Áurea expôs o machismo como arma de tortura. “O que você tá fazendo na política? Tinha que tá lavando louça; trepando com o seu marido para dar cria nos filhos; obedecer a eles”.

Sua prisão foi manchete nos jornais de Ribeirão Preto. O jornal o Diário da Manhã, que circulava à época na cidade, trouxe como destaque de capa a prisão da guerrilheira sob o título "Eis a bela subversiva". Nos bastidores, Áurea contou que para posar para a foto foi obrigada a disfarçar e sorrir mesmo depois de ter quase todo o cabelo arrancado pelos torturadores e de ter passado por pau de arara, choques elétricos, cadeira do dragão, assédio sexual.

Áurea também ficou presa na Cadeia de Cravinhos, cidade vizinha, e foi transferida para a Penitenciária Feminina de Tremembé, passando pelo Complexo Penitenciário do Carandiru, em São Paulo.

Em 1972, após três anos e meio de prisão, saiu em liberdade condicional e por muito tempo seguiu sendo vigiada pela polícia: “Meu Deus, que coisa difícil readaptar, sair com liberdade condicional. Todo mês tinha que me apresentar na 2ª Auditoria Militar, senão, o juiz, falou: ‘Olha o botão vermelho, ó, prontinho, nunca mais vai entrar numa cadeia'. Bala, né, matar...”

Depois de finalmente concluir o curso de enfermagem, continuou seu caminho de assistência social e luta por direitos humanos, ministrando cursos, orientando parteiras em comunidades, trabalhou com indígenas e os sem-terra, tornando-se especialista no trabalho com ervas medicinais e fitoterapia.

Seu falecimento foi no dia 15 de dezembro de 2022.

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Maria Aparecida dos Santos nasceu em 1947, em Ituverava, no interior São Paulo. Passou parte da infância em Goiás e, em 1956, voltou ao interior paulista, ao mudar-se com a família para Ribeirão Preto. O pai, Patrocínio dos Santos, era membro do PCB – Partido Comunista Brasileiro. Desde menina, Cidinha aprendeu a lutar contra a opressão.

Ela tinha 17 anos quando houve o golpe militar de 1964. Já era comunista de carteirinha, em 1968, quando entrou para a luta armada se tornando membro da ALN – Ação Libertadora Nacional.

MARIA APARECIDA DOS SANTOS

''Veio um cara e enfiou a mão na blusa, com um safanão arrancou os botões, passou as mãos nos seios.''
(Depoimento à Comissão da Verdade de Ribeirão Preto – 2014)

Atuava como mensageira, ajudava a expropriar placas de carros para serem usadas em ações do grupo, aprendeu a atirar e a montar coquetel molotov. Apesar de não gostar de armas de fogo, era preciso estar pronta, caso fosse necessário na luta contra o regime militar. No centro de treinamento montado pela ALN em um sítio, em Altinópolis, a 70km de Ribeirão Preto, fazia exercícios de mira, mas foi um alívio para ela nunca ter precisado atirar.

Militante ativa, Cidinha foi sequestrada pela OBAN - Operação Bandeirante, no dia 29 de setembro de 1969, em São Paulo, enquanto planejava sair do país. Foi pega quando entrou na casa de amigos, na capital paulista. Ela tinha 22 anos de idade. À Comissão da Verdade, em 2014, contou que começava naquele momento um longo martírio nas mãos dos torturadores: “A tortura comigo começou dentro da casa em que se deu a minha prisão. Socos, pontapés, tombos, e sendo levantada pelos cabelos, tapas no rosto, soco no estômago (...) jogavam água no corpo para que os choques ficassem mais fortes”. Cidinha era torturada diariamente na OBAN. Contou que em um dos interrogatórios, cinco torturadores fizeram um círculo em torno dela. “Quando eu caia, me levantavam pelos cabelos de uma forma tão dolorosa que saia lágrimas de meus olhos sem eu estar chorando. E começavam tudo novamente até o momento em que o comandante da sessão de tortura mandava parar para me interrogar”. E, então, era a vez da tortura psicológica. Se não falasse nada, as agressões recomeçavam: murros, chutes, puxões de cabelo, socos nos ouvidos, choques elétricos, armas apontadas para cabeça, palmatória, pau de arara, cadeira do dragão.

O machismo era evidente nas torturas: “Eu estava era morrendo de vergonha de fazer xixi na frente daquele monte de homem. Isso no primeiro dia. Aí eu fiz xixi. Um vira para o outro e fala assim: ‘Olha a mijada que ela deu’. Aquilo para mim foi o mesmo que abrir o chão. (...) Tapa no rosto que humilha muito, você ali pelada, nua, é muito humilhante. A moral vai lá embaixo. (...) No início

das prisões, as torturas duravam dias, ninguém ficava sabendo para onde nos levavam”. Cidinha ficou quatro meses incomunicável.

Depois da OBAN, foi levada para o DOPS, onde ficou durante um mês, “lá conheci o delegado Sergio Paranhos Fleury, chefe do Esquadrão da Morte, fui interrogada muitas vezes por ele”. Em ambos os lugares, lembra que não faltavam as piores formas de suplício, como “ficar de costas, colocar a ponta do terceiro dedo das mãos na parede e ficar na ponta dos pés e permanecer naquela posição sem se mexer, e eles me interrogando. Quando eu saia da posição me batiam com as mãos em concha nos meus ouvidos, me provocando tonturas terríveis, eu perdia todo meu equilíbrio, tudo girava e eu até vomitava. Me voltavam para a mesma posição e isso se repetia.”

Maria Aparecida foi transferida para o Presídio Tiradentes no dia 4 de novembro de 1969. Ficou na torre, uma construção no meio das outras alas onde eram encarcerados homens e mulheres, presos(as) comuns e presos(as) políticos(as). Como a torre era local exclusivo das presas políticas, passou a ser chamada de torre das donzelas. Nem todas gostaram do apelido, enxergando o viés machista ao relacionar as guerrilheiras a “donzelas”.

Ir para o presídio foi um alívio para Cidinha. Sua chegada está descrita no livro A Torre, de Luiza Villaméa. Uma jovem de cabelos longos, “compleição delicada” e com sua “mala cinza com debrum azul”, a mesma mala que havia preparado para sair do Brasil.

 

Sequer saiu do estado de São Paulo. “A mala, que eu chamava de malinha, porque era pequena, foi comigo e ficou retida na Operação Bandeirante/DOI-CODI, por ocasião da minha prisão naquele órgão de repressão. Depois foi comigo para o DOPS, quando para lá fui transferida. Também foi comigo para o Presídio Tiradentes e por último, quando fui libertada, a mala voltou para Ribeirão Preto comigo. Há muito tempo que ela estragou e ficou sem condição de uso e nem existe mais.”

Na ala conhecida como Torre das Donzelas, por receber presas políticas, Cidinha, com seu 1,56 m, ganhou o apelido de “mico” porque a cada tilintar das chaves das carcereiras ficava “agarrada às grades” da cela no piso superior, tentando ver o que “se passava da escadaria para baixo”. (...) “O ambiente era insalubre, nos organizávamos para manter o local higienizado. A torre era limpa. Fizemos uma comunidade, tivemos ganhos nas nossas reivindicações. Quando caia em nossas mãos alguns livros que queríamos, fazíamos núcleos para estudá-los e discuti-los. Éramos alegres, mas tristes também. Fazíamos teatro, cantávamos, fazíamos tricô e crochê para vender e usar o dinheiro para que a família de companheiros que moravam em outros estados pudesse visitá-los e para subsistência de algumas famílias.”

Na torre não havia a tortura física, porém cada vez que alguma das presas era retirada e levada para o DOPS, havia o medo ou de que não voltasse ou se voltasse viria mais uma vez marcada pela tortura. O que não era incomum. E assim transcorreram os dias em meio às dores, às pequenas e delicadas alegrias no convívio e aprendizados com as outras presas políticas; sentimentos de constante apreensão se davam a cada chegada, a cada partida, com destino certo ou incerto. Foram três anos, dois meses e dezoito dias de prisão, sem julgamento.

Quando Cidinha deixou a prisão, carregou consigo os traumas das agressões físicas e psicológicas. “É claro que fiquei feliz e contente em sair. Mas a primeira reação que tive depois da alegria foi ficar muito preocupada, insegura com a realidade que eu teria que enfrentar e como lidar com isso. Pensava muito nas companheiras que ficaram. Durante um tempo eu fiquei sem energia. Eu saia com minha mãe, mas ficava com pensamento sempre no Presídio Tiradentes, lembranças ruins povoavam minha cabeça. Andei uns tempos sem equilíbrio, caía; até chutei meu tornozelo duas vezes. Era uma dor terrível, ficava completamente inchado e roxo. Parece quase impossível esta façanha, não? Mas fui me controlando, até vencer as dificuldades psicológicas e dificuldades físicas que eu trouxe de lá.”

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O medo de morrer nas mãos dos torturadores da ditadura militar (1964 – 1985) foi narrado à Comissão Nacional da Verdade por Damaris Lucena quando tinha 87 anos. Era agosto de 2014.

A história de sofrimento físico, moral, sexual foi um dos capítulos de uma vida de ausências. A mãe morreu de fome quando ela ainda era uma bebê, não havia comida para toda a família. Sobrava penúria no norte do Maranhão. A maranhense de Codó fez questão de deixar claro que a miséria foi uma companheira indesejada desde que nasceu em 22 de agosto de 1927.

''Eles me jogaram dentro de um quarto, ali eu tive medo de ser morta, porque um monte de delegado em cima de mim, me espancando, ali eu tive medo de ser assassinada.''

DAMARIS LUCENA

Damaris aprendeu a juntar as letras e formar palavras, na marra, catando pedaços de jornais jogados na rua. No quarto ano do antigo primário, parou de estudar para trabalhar.

Na adolescência, entre os 13 e 16 anos, trabalhava quebrando coco. Depois, passou a socar coco e arroz no pilão; lavar e passar roupa; cortar lenha; carregar água na cabeça por quilômetros. Foi trabalhar numa fábrica em outra cidade, Caxias, e recebia um salário equivalente a 4 reais. Casou-se com Antônio Raymundo Lucena, também operário. Damaris perdeu o primeiro filho, nascido no Maranhão. Para fugir da pobreza, em 1950 o casal decidiu que tinha que fazer o caminho da maioria dos nordestinos, pegar estrada rumo a São Paulo. Primeiro, Antônio partiu, quatro meses depois foi a vez de Damaris se juntar ao marido. Os dois conseguiram trabalho numa fábrica têxtil. Na capital, tiveram outros quatro filhos: Ariston, Denise, Adilson e Telma.

Ao trabalho na tecelagem, o casal agregou a luta sindical por melhores condições de vida. Damaris estava com 24 anos e não entendia nada sobre militância política e comunismo. “Um dia eu falei: Gente, o que é que é comunismo? ‘Companheira, comunismo é um partido. É um movimento que quer que todo mundo tenha moradia, todo mundo tenha hospital, todo mundo tenha escola, todo mundo tenha dentista, todo mundo seja tratado como ser humano’. “Isso aí é comunista? Ah, bom, eu também sou comunista”. Contra as injustiças, Damaris disse que sempre teve bronca das pessoas que maltratavam os negros: “Porque eu sou de família africana. Meu pai... Meu bisavô foi trazido da África e os filhos foram todos vendidos no Brasil.”

A militância custou o emprego de Damaris cinco anos após ser contratada na fábrica Ricardo Jafet. Ela trabalhou como ajudante de cozinha, como doméstica, feirante. Damaris e o marido eram membros da VPR – Vanguarda Popular Revolucionária, quando vários militantes foram presos. Com o AI-5, decretado em dezembro de 1968, a família Lucena entrou para a clandestinidade, mudando de cidade em cidade. A última foi Atibaia, interior de São Paulo. Nesse município, os passos dos Lucena começaram a ser seguidos por um informante da polícia. Até que a família foi pega em casa, no bairro Jardim das Cerejeiras, em 1970. Damaris dava aula aos filhos porque eles não podiam ir para a escola. No dia em que foram presos, o marido estava deitado quando ouviram batidas na porta. A casa estava cercada por policiais. “Meu marido saiu, estava sem camisa e eles falaram: ‘Vai vestir a camisa que você vai prestar declaração na delegacia’. Meu marido falou: ‘Eu não me entrego pra ninguém. Ninguém vai me pendurar no pau de

arara’. Ele pegou a arma e resistiu à prisão. Foi um momento muito terrível”. Ela temeu pela própria vida e dos filhos e viu o companheiro Antônio Raymundo Lucena ser assassinado: “Vi dar o tiro de misericórdia na cabeça do meu marido. Ele já estava quase morto, o pé dele torceu assim. Eu falei, meu marido ainda estava vivo quando deram aquele tiro na cabeça dele. Voltei e me sentei de novo. E os caras gritavam: ‘Mata ela! Mata logo ela! Mata os filhos dela’! Eu tive tanto medo de ser morta naquela noite [choro] e os meus filhos inocentes também.”

Damaris foi levada para a OBAN – Operação Bandeirante, na capital paulista, onde ficou incomunicável. As crianças, Adilson, a irmã gêmea Denise e a mais nova, Telma, não foram aceitas pelas freiras de um colégio católico: “Aquelas freiras me conheciam. As freiras do convento e meus filhos foram levados pra lá quando eu estava presa. As freiras não quiseram ficar com os meus filhos. Meu filho viu ela balançar com a cabeça, que não queria eles lá. Jogaram meus filhos naquele juizado de menor, naquela coisa medonha”. Denise, Adilson, Telma ficaram em alas distintas no Juizado de Menores. Sofreram discriminação e maus-tratos por serem filhos de “terroristas”. Adilson, de nove anos, apanhava da polícia como gente grande. O colchão era molhado para que as crianças não se deitassem.

O filho mais velho, Ariston, não estava na casa de Atibaia quando a polícia chegou. Ele também militava na VPR e meses depois da morte do pai, da prisão da mãe e dos irmãos pequenos, foi preso e torturado. Damaris ficou sem notícia alguma de Ariston. Ela mesma ficou incomunicável por mais de vinte dias. Na OBAN Damaris foi bastante torturada. Riam ao dar choque elétrico nela e os xingamentos seguiam a lógica de sempre ao chamá-la, assim como às outras mulheres, de “puta”. Quando ela menstruou, ouviu mais xingamentos: “Leva essa mulher fedorenta pra lá. Tira essa mulher daqui”. Ofensas seguidas de “...pancadaria, choques, murros na cara, bofetada daqui, bofetada dali. Levei muito chute”. Sádicos e violentos, os torturadores deram tantos chutes na vagina de Damaris que a abriu e “o útero ficou pendurado pra fora e a bexiga e tudo”. Mas a pior dor foi quando os torturadores levaram seus três filhos na prisão e ameaçaram torturá-los caso ela não falasse o que sabia. “Eu sei que um dia eu subi na janela, estou vendo meus filhos lá embaixo no saguão na Operação Bandeirante, me deu uma crise de loucura. Trazer meus filhos pra torturar, meus filhos pequenos. Eu dava cada grito.”

Da OBAN foi transferida ao DOPS onde encontrou seus três filhos menores e sentiu tristeza e revolta aos vê-los ali “embolados”, com medo. Damaris estava na lista dos presos políticos que seriam trocados pelo cônsul japonês Nobuo Okuchi, sequestrado em São Paulo. Os outros presos eram madre Maurina Borges da Silveira, Shizuo Ozawa (conhecido como Mário Japa), Otávio Angelo e Diógenes Oliveira. Damaris não aceitou a ordem de deixar os filhos no Brasil. “Eu falei: Não. Não. Eu não saio do Brasil se não levar meus filhos. Não saio do Brasil sem levar meus filhos”. Por fim cederam. Damaris, os filhos e os quatro presos embarcaram no avião rumo ao México. “Quando entramos no avião, eu falei: Vocês não vão me algemar, por que como é que eu vou cuidar dos meus filhos? Algemaram a freira. Algemaram os companheiros que saíram juntos.”

Damaris e os filhos não permaneceram no México. Receberam asilo do governo de Cuba. Na terra de Fidel Castro pôde formar os filhos e, com satisfação, lembra que ela mesma fez dois anos de jornalismo: “Eu botei o pé na faculdade em Cuba. Uma camponesa, uma operária botar o pé na faculdade em Cuba é um prodígio”. E foi em Cuba que Damaris adotou, informalmente, Ñasaindy Barret, filha da militante Soledad Barrett Viedma.

A paraguaia estava em Cuba e recebia treinamento de guerrilha. Ela veio ao Brasil, deixou a filha com Damaris, e aqui foi assassinada no Massacre da Chácara São Bento, no Recife, em janeiro de 1973.

Com a Lei da Anistia de 1979, Damaris decidiu retornar ao Brasil, sonhava em rever Ariston, o filho mais velho. “Inclusive, quando faltava acho que um mês ou dois pra nós sair de Cuba, eles soltaram ele. Eu falei: Eu quero voltar pro Brasil. Eu quero ver meu filho. Fazia mais de 10 anos que eu não via ele.”

Seis anos após dar testemunho à Comissão Nacional da Verdade, a ex-presa política, operária, líder sindical, morreria aos 93 anos, vítima de um câncer, durante a pandemia, em 2020. Damaris morava em Valinhos, município vizinho de Campinas, no interior de São Paulo. Essa mulher nordestina, negra, lutou bravamente contra a miséria desde que nasceu; lutou contra o regime militar que fez da tortura uma cartilha diária: “Essas ditaduras brasileiras fizeram muita injustiça, mas muito mesmo. As catervas estão por aí, vivas ainda, e falando que é mentira e falando que não teve isso e que não teve aquilo. Semana passada eu estava vendo um tenente-coronel, um desgraçado desses aí, falando que é tudo mentira que não teve nada disso. Vocês sabem perfeitamente que eles andam por aí...”

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Os dados constam da certidão de óbito lavrada em 7 de março de 1996. A mãe de Iêda, Eunice Santos Delgado, foi incansável na busca por notícias de sua filha, sequestrada pelos militares.

Dona Eunice militou em grupos de familiares de desaparecidos e, quando Nelson Mandela foi libertado da prisão em 1990, na África do Sul, reacendeu nela a esperança de encontrar a filha viva, pois tinha fé que, se Mandela saiu vivo da prisão após 27 anos, “...isso também poderá acontecer com os que estão presos aqui no Brasil.”

''Falecida em 11 de abril de 1974 em hora ignorada no(a) lugar ignorado. (...) Causa mortis: ignorada. Local de sepultamento: local ignorado.''

IÊDA SANTOS DELGADO

Dona Eunice morreu aos 74 anos, em 1992, quase oito meses depois de seu marido, Odorico Arthur Delgado, morto aos 73 anos. Os dois nunca reencontraram a filha Iêda. A família conseguiu apenas o atestado de óbito. Iêda tinha 28 anos quando desapareceu pelas mãos dos seus torturadores.

Nascida em 9 de julho de 1945, no Rio de Janeiro, Iêda era uma mulher afrodescendente. A mãe, dona de casa, e o pai, funcionário do Banco do Brasil. Iêda formou-se em Direito pela UnB - Universidade de Brasília. No livro “Luta, Substantivo Feminino – Mulheres torturadas, desaparecidas e mortas na resistência à ditadura”, da jornalista Tatiana Merlino, publicado em 2010, há um capítulo sobre essa mulher que lutou contra a ditadura militar brasileira: “Sua participação política teve início entre 1967 e 1968 em Brasília, quando estudava direito na UnB e participou discretamente das mobilizações estudantis que marcaram o período.”

Iêda militava na Aliança Libertadora Nacional, mas não em ações armadas; integrava a equipe de apoio que ajudava pessoas perseguidas pela ditadura. E foi presa durante uma dessas ações. A advogada tinha viajado a São Paulo para organizar a saída do Brasil de um casal de militantes da ALN. No dossiê da Comissão Especial de Desaparecidos Políticos consta que Iêda Santos Delgado embarcou no Rio de Janeiro num voo da VARIG. Quatro dias se passaram e sua mãe recebeu um telefonema anônimo informando que Iêda “caiu” na capital paulista. A partir dessa ligação começou a busca da família por notícias de Iêda em quartéis, delegacias, DOI-CODI, DOPS, hospitais, Instituto Médico Legal. É o que está relatado no dossiê. Um general disse à dona Eunice que Iêda teria sido presa em Campinas e que em decorrência das torturas chegou a ser hospitalizada. Mas nada disso foi comprovado.

Até sua morte, em 1992, dona Eunice não desistiu de procurar pela filha. A cada telefonema anônimo que recebia com a “voz” de Iêda afirmando que estaria bem, alimentava a esperança de que a filha estivesse viva. Outro motivo para que dona Eunice apostasse nessa versão foram as cartas escritas por Iêda. A primeira, sem data e com carimbo de Belo Horizonte, em cinco linhas contava que “...em breve se comunicaria e que a família não se preocupasse”. O dossiê sobre o desaparecimento de Iêda Santos Delgado revela também que um mês após a primeira carta, a família recebeu outra postada no Uruguai e com a letra muito tremida”. Dona Eunice resolveu pedir exames grafológicos das cartas e foi comprovado que a caligrafia era de sua filha. Nunca mais se ouviu falar de Iêda.

No dia 17 de agosto de 1976, dona Eunice escreveu uma carta ao então chefe do SNI – Serviço Nacional de Informações, o general João Baptista de Oliveira Figueiredo, na qual relatava a peregrinação feita em busca de um sinal, uma pista do paradeiro da filha. Dona Eunice suplicou ao general que determinasse providências para localizar Iêda. “À pobre mãe que subscreve este pedido, até mesmo o comunicado de já não pertencer minha filha ao mundo dos vivos é preferível à incerteza, à desesperança e à dor cruciante determinadas pela atual situação”. Ao encerrar a carta, dona Eunice apelou ao general Figueiredo: “Senhor General, que as bençãos da Virgem Santíssima, mãe de todos e também as de vossa santa progenitora recaiam sobre vós, pelo que puder fazer para minorar a dor de quem esta subscreve. Respeitosamente.”

Não houve compaixão desse general que viria a ser o último presidente do regime militar do Brasil (1979 – 1985); nem de todos os outros militares e autoridades procurados por dona Eunice. Ela morreu sem saber onde estava sua filha. Uma morte sem corpo.

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Essa foi a orientação de um médico aos torturadores.

Ele se referia a Criméia Schmidt de Almeida, que estava grávida de sete meses quando foi sequestrada pelos militares a serviço da ditadura.

Ela deu à luz a um menino e foi impedida de vê-lo.

Criméia não sabia se o bebê estava seguro, se era alimentado e, além disso, tinha medo de que seu filho fosse dado à adoção, ameaça feita diversas vezes.

Ela só voltou a ter contato com o bebê depois de 53 dias. 

''Só não pode espancar a barriga.''

CRIMÉIA SCHIMIDT DE ALMEIDA

Criméia Schmidt de Almeida já tinha sido detida no Congresso de Ibiúna, em 1968, e foi presa pela segunda vez, aos 26 anos, no dia 29 de dezembro de 1972. Eram os anos de chumbo -, início em dezembro de 1968 com o decreto assinado pelo presidente Arthur da Costa e Silva, o Ato Institucional nº 5. O AI-5 suspendia todos os direitos constitucionais. Terminou, oficialmente, em 1978, porém a violência contra a oposição aos governos militares continuou até 1985, quando saiu o último general-presidente da ditadura, João Baptista Figueiredo.

Antes de ser presa, arbitrariamente, porque a prisão não foi comunicada a nenhum juiz, Criméia estava na região do Araguaia, na divisa dos estados do Pará, Maranhão e do atual Tocantins, no confronto que terminou em 1974 com inúmeros desaparecidos, entre indígenas, camponeses, guerrilheiros. Oficialmente, morreram 67 guerrilheiros e 31 camponeses. A maioria dos corpos não foi identificado. À Comissão Nacional da Verdade, em 2014, audiência pública realizada sobre os mortos e desaparecidos da Guerrilha do Araguaia, Criméia falou sobre sua passagem por aquela região. Antes de voltar para São Paulo, em 20 de agosto de 1972, Criméia ficou no Araguaia por três anos. O retorno à capital paulista ocorreu para restabelecer o contato das lideranças do partido na guerrilha e do comitê central. Mas o principal motivo era porque ela estava grávida.

Em 28 de dezembro de 1972, Maria Amélia de Almeida Teles, a Amelinha Teles, e o marido César Augusto Teles, irmã e cunhado de Criméia, foram presos. No dia seguinte, foi a vez de Criméia ser sequestrada, como ela faz questão de enfatizar. E não foi somente ela, seus dois sobrinhos, Janaína, de cinco anos, e Edson, de 4 anos, também foram levados para a OBAN – Operação Bandeirantes. Criméia se identificou com outro nome e como babá das crianças. Quando os homens da repressão descobriram quem era ela - pois já estavam atrás da militante política, a mesma que foi presa em 1968 - começaram os interrogatórios e torturas físicas e psicológicas: “Quando eles me identificaram, eu passei a ficar nesse alojamento, só, nunca mais fiquei com ninguém na cela. O primeiro que me espancou foi o major Carlos Alberto Brilhante Ustra, no dia que eu fui identificada. O Ustra chegou, ele já veio xingando no portão e ele entrou onde eu estava e agarrou-me pelos cabelos e começou a me espancar até a salinha de baixo da tortura, no andar térreo. Pouco depois eu perdi a consciência. E a partir daí, todos os policiais, todos os militares, inclusive o carcereiro me torturavam. Um espancamento com murro, com qualquer coisa, sem interrogar, interrogando. Depois que eles descobriram quem eu era, eu passei a andar encapuzada. Bem, nessa altura eu já estava no sétimo mês de gravidez.”

Criméia era submetida a interrogatórios consecutivos; ouvia ameaças de que iria sofrer um acidente de carro; à noite a levavam até um veículo, sempre encapuzada e, de acordo com relados dela, ficava a noite toda dentro do carro aguardando para sair e sofrer o acidente. Ela escapou das torturas no pau de arara e acredita que foi por causa da barriga de sete meses, só que tiveram outras formas de torturá-la, como a roleta-russa com arma automática, “...eles só me assustaram com o primeiro tiro, depois não assustavam mais.”

Do DOI-CODI, na capital, Criméia foi levada de avião para Brasília, em janeiro de 1973. E a vida dela enquanto ficou no PIC - Pelotão de Investigações Criminais da Polícia do Exército, não melhorou. As torturas continuaram, como ela contou durante seu depoimento: “Enquanto eu estive lá antes de ter meu filho, as condições eram péssimas, mas eu sempre ficava reivindicando alguma coisa, então pedi para tomar banho de sol, aí me puseram para tomar banho de sol por volta de meio-dia num pátio de cimento muito quente, descalça, fez bolhas nos pés”. No dia 11 de fevereiro, Criméia sentiu dores fortes e a levaram para o Hospital de Base do Distrito Federal, um médico não quis atendê-la porque presos políticos davam muito trabalho. Retornou ao PIC e foi colocada em uma cela sem ventilação, com muitas baratas e a quantidade delas aumentou quando a bolsa amniótica se rompeu. Criméia contou com a ajuda de outros presos vizinhos de cela: “Eram militares, presos comuns, traficantes, não eram presos políticos. (...) Ou seja, esses bandidos de dentro das grades eram mais humanos do que os bandidos que estavam do lado de fora.”

Em trabalho de parto, Criméia foi internada no Hospital do Exército e lá também sentiu o descaso pois o obstetra, um médico oficial do Exército, não quis socorrê-la porque ele não estava de plantão. Quando ela reclamou que o filho dela poderia morrer, ouviu dele que “não tem importância, é um comunista a menos”. O filho de Criméia nasceu no dia 13 e ficou com a mãe no hospital por cerca de 50 dias até o dia 1º de abril, porque houve complicações pós-parto. “Bem, o meu filho ficou comigo assim, desses 50 dias, ele uma hora ia para amamentar, outra hora ele não ia, eles usavam meu filho para me torturar. E às vezes eles faziam ele ficar dois, três dias sem vim para mamar, e ele prometia ele para o juizado de menores porque eu não colaborava, voltava vomitando, voltava, enfim”. Depois o filho de Criméia foi levado para a casa de uma tia e a rotina de tortura física recomeçou. No Ministério do Exército, em Brasília, “...me deixaram o dia inteiro sem beber e sem comer, e sem ter lugar também. E no final um oficial, sempre sem identificação, me pediu desculpas porque eles estavam muito ocupados e não podiam me interrogar e que eu voltasse para o PIC.”

Criméia foi liberada da prisão em dezembro de 1973 e levada por três militares para a casa de uma tia em Belo Horizonte. Durante a viagem, ela sentiu medo de ser morta numa estrada qualquer. A enfermeira é enfática ao dizer que “...na verdade eu nunca fui presa, eu nunca fui apresentada como presa à justiça, fui sequestrada esse tempo todo.”

A luta de Crimeia e sua familia continuou. Em 2005, ela, o filho, a irmã, o cunhado e os sobrinhos moveram uma ação declaratória na Justiça exigindo que o coronel reformado Brilhante Ustra fosse responsabilizado pelas torturas que eles sofreram. Em um feito inédito, a família ganhou a causa e Ustra foi o primeiro agente da ditadura oficialmente reconhecido como torturador.

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Leila Bosqueto nasceu em novembro de 1947, em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo e logo mudou-se para São Joaquim da Barra, a 70 km de distância, onde viveu por 19 anos. Leila já participava de movimentos estudantis e em 1969 começou a colaborar com as Forças Armadas de Libertação Nacional, grupo de resistência contra a ditadura, com sede em Ribeirão Preto e com integrantes de várias cidades do interior de São Paulo. 

Ela distribuía na faculdade, em Bauru, o jornal O Berro, produzido pelo grupo e considerado subversivo pela ditadura. 

''Depois de muitos tratamentos e terapias, hoje consigo dizer e escrever sobre o que aconteceu. Sei que estou viva, sobrevivente de um tempo vergonhoso de nossa História.'' (Em entrevista à produtora NuOlhar filmes)

LEILA BOSQUETO

Estudante de educação física, ela tinha 21 anos quando foi presa, em outubro de 1969, na frente da Instituição Toledo de Ensino.

Entre as violências que sofreu na prisão, uma marcou profundamente. O soco na cara, que levou do delegado Miguel Lamano. “E muitos xingamentos e palavrões; me chamavam de puta, vaca, biscate, galinha..., coisas desse tipo. Muitos empurrões, ameaças e queriam que eu batesse em um companheiro preso, que estava com os pés na bacia de água tomando choque elétrico. Eu me neguei e por isso apanhei com muitos socos e tapas na cara. Torturas psicológicas constantes, diziam que iam matar minha família e amigos”.

Leila “caiu” no mesmo período das prisões de outros membros das FALN e ficou presa com eles no quartel de Ribeirão Preto. “Não sei quantos dias, gente. Quando tá preso, a gente perde a noção do tempo, tá? Eu não sei se é dia, se é noite, quantos dias passaram, quantas horas, não sei quanto tempo passou. Eu fiquei presa dentro de uma sala que guardava os instrumentos da banda. Eu tinha uma vontade de tocar com esse tambor”. Mas Leila não tocou o tambor. Calada, foi submetida a uma das várias formas de tortura: ver o então namorado, com quem se casou mais tarde, Djalma Quirino de Carvalho, arrebentado. “Eles me apresentaram: ‘Olha aqui seu herói’. Fazia um calor dos infernos, era novembro, e ele estava com uma blusa de manga comprida. Eu queria ver os machucados dele. O policial do meu lado dando soco e aí disse: ‘Vai sua puta, vai, olha agora. Prostituta, você não vale nada’. Era assim, horrível, horrível de se ouvir. Aí o Djalma me mostrou uma parte do braço com marcas de cigarro que eles apagavam nos braços dele, assim como eles apagavam também o cigarro nos seios da Áurea.”

A estudante foi transferida para a Cadeia de Cravinhos, cidade vizinha, onde dividiria uma cela com uma presa da qual só se recorda do primeiro nome, Lázara, que logo seria libertada; Áurea Moretti, uma das líderes das FALN, e com a madre Maurina Borges da Silveira, diretora do Lar Santana, na Vila Tibério, em Ribeirão Preto. A freira cedeu uma sala para encontros do MEJ – Movimento Estudantil Jovem e queimou documentos que a ditadura considerava subversivos. Vanderlei Caixe e Mário Lorenzato também faziam parte do grupo e usavam o porão do Lar para guardar os documentos e imprimir o jornal O Berro.

Em Cravinhos, as três se uniram para suportar as agressões físicas, psicológicas e sevícias. Leila afirma, com os olhos marejados, que não foi tão agredida como as duas companheiras, Maurina e Áurea. Ela completou seus 22 anos na prisão: “Passei meu aniversário atrás das grades. Mas teve bolo e docinhos”. Presentes oferecidos pela primeira-dama da cidade. A mulher do prefeito mandou entregá-los após de ter ido à cadeia para conhecer as “terroristas” e ficou chocada: “Quando eles chegaram, viram uma freira, uma menina que era a Áurea, estourada, e eu, a aniversariante.”

Depois de um mês, Leila foi libertada. A madre e a Áurea, não! “Quando fui solta, me fizeram um sermão e me fizeram prometer que jamais iria contar sobre as torturas sofridas e muito menos sobre as torturas que presenciei da Madre Maurina e da Áurea Moretti. Elas sofreram muito e eu vi”. Em meio à dor, Leila se recorda de como elas se abraçavam todos os dias “porque era só o que nós tínhamos”, e não se esquece das vezes que Áurea cantava para elas: “A Áurea estava muito machucada, e mesmo assim ela cantava O Som do Silêncio para nós. E cantava também Poeira do meu Sertão.”

Leila voltou a estudar educação física e precisou lidar com o afastamento dos colegas de curso: “Eles se afastaram de mim, por medo, como se eu tivesse uma doença contagiosa”. Formada, mudou-se para São Paulo e durante 28 anos foi professora. Em 1973, foi presa novamente. Nessa época era militante da ALN – Aliança Libertadora Nacional; saiu dias depois, por falta de provas.

Leila teve duas filhas com Djalma, de quem se separou no início de 1977, e um filho do segundo casamento. Aposentada, retornou a Ribeirão Preto em 1984. A ex-presa política passou quase a vida toda sem conseguir falar sobre as torturas sofridas: “Eu me bloqueei mesmo. A gente faz terapia, terapia, terapia, terapia. E aí a gente, uma hora, destampa. E eu mudei também meu estilo de vida pra sobreviver. Eu parti para holística e consegui me reequilibrar.”

A primeira vez que falou abertamente sobre o assunto foi em uma entrevista em 2023, para o documentário produzido pela NuOlhar filmes, sobre a freira com quem ficou na prisão. Mais de 50 anos depois, Leila se permitiu ser vista por seus amigos e familiares: “Quando aconteceu o filme Madre, meus filhos puderam conhecer um pouco mais de mim. Somente um neto assistiu (tenho sete), mas ele disse que sentiu muito orgulho por eu ser avó dele. Outros netos sabem de minha prisão, também se sentem representados. Meus filhos e netos são muito solidários.”

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Essa é uma entre tantas falas marcantes da entrevista da madre Maurina Borges da Silveira à jornalista Matilde Leone, na década de oitenta.

As duas se encontraram na casa da mãe da freira, em Conceição das Alagoas, cidade mineira. Desse encontro, nasceram, segundo Matilde, "uma cumplicidade” e o livro “Sombras da repressão: O outono de Maurina Borges”, publicado 1998, que mescla realidade e ficção.

Maurina nasceu em Perdizes, em Minas Gerais, em 1924.

Desde criança sonhava em seguir a vida religiosa. 

''Dava, assim, cinco minutos de choque, depois parava. E foi esse negócio até que eu já não estava aguentando mais.''

MADRE MAURINA BORGES DA SILVEIRA

A vocação aflorou aos 7 anos. De uma família de pais católicos fervorosos, Maurina era a oitava de onze filhos, quatro se tornaram religiosos. Ela entrou para a vida religiosa aos 14 anos e deu os votos perpétuos em 1950, na Congregação das Irmãs Franciscanas da Imaculada Conceição. Em 1969, foi convidada para ser diretora do Lar Santana, um lar de meninas, na Vila Tibério, em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.

Já na chegada à cidade, incomodou uma parte da alta sociedade ribeirão-pretana. Como o Lar Santana era exclusivamente para crianças pobres, a madre resolveu devolver crianças que não se encaixavam nesse perfil. Eram filhas de mães solteiras de famílias ricas. Em entrevista ao jornalista Luís Eblak, no caderno Mais, da Folha de São Paulo, em junho de 1998, falou sobre o assunto: “As famílias davam cheques para nós e tudo o mais, mas o correto era que as crianças vivessem em suas casas. O que eu fiz? Devolvi as 15 crianças. Fui à casa de cada uma delas e as devolvi. E eram mansões, casas enormes. Eu dizia para as famílias: O orfanato é lugar de criança necessitada que precisa de um lugar para viver, que não tem pai nem mãe. Acho que isso acabou influenciando de algum jeito o que me ocorreu depois. Não sei quem eram as famílias, mas isso deve ter tido ligação com a minha prisão.”

A prisão da madre aconteceu em 25 de outubro de 1969. Ela tinha 45 anos. Foi acusada, injustamente, de pertencer ao grupo de resistência Forças Armadas de Libertação Nacional, com sede em Ribeirão Preto e integrantes em várias cidades do interior de São Paulo. Isso porque ela cedia uma sala aos jovens que faziam parte do MEJ – Movimento Estudantil Jovem, da Igreja Católica. Eles eram também membros das FALN e usavam, além da sala para os encontros, o porão onde, entre outras atividades, imprimiam O Berro, jornal de denúncias contra o regime militar.

Quando madre Maurina soube, pelos jornais, da prisão de alguns dos jovens, pediu a um funcionário que arrombasse a porta do porão. Encontrou materiais que considerou comprometedores, avaliou que poderiam prejudicar tanto o Lar como os jovens e muitas pessoas que tinham seus nomes nos documentos arquivados ali. Ela pediu a um funcionário que queimasse tudo. Maurina sempre negou qualquer envolvimento com as FALN, mesmo assim, foi chamada de “freira subversiva”, “amante de terrorista” em manchetes de jornais locais e estaduais. Presa, foi levada primeiro ao quartel de Ribeirão Preto. Ali começava seu calvário.

 

Uma equipe da OBAN – Operação Bandeirante, órgão repressor dos militares, chegou à cidade para interrogá-la. Entre os torturadores estava o delegado Sérgio Paranhos Fleury, que não demorou a lhe dar um tapa no rosto a chamando de “freira do diabo”. Maurina sofreu assédio sexual. Entre ameaças e intimidações, os torturadores diziam que fariam um exame ginecológico nela, rasgaram sua blusa e deram choques elétricos nos dedos e nos seios. “E isso durou muito tempo, até umas três ou quatro da tarde. Depois veio um delegado, bêbado, e começou a me abraçar e eu disse: Sai pra lá.”

Os dois delegados responsáveis por sua prisão, Renato Ribeiro Soares e Miguel Lamano, foram excomungados pelo bispo da cidade, Dom Felício Vasconcelos, uma pena extremamente grave para os católicos daquela época. A excomunhão foi lida nas missas de todas as igrejas da região.

 

A prisão e as torturas da madre foram também um dos fatores determinantes para que o então bispo de São Paulo, Paulo Evaristo Arns, se tornasse uma das pessoas mais combativas pelos direitos humanos no país e crítico ferrenho do regime militar.

 

De Ribeirão Preto, Maurina foi transferida para a cadeia de Cravinhos. Ficou incomunicável e continuou a apanhar dos torturadores.

 

Depois de um mês, foi transferida para o Presídio de Tiradentes, na capital. Levada à Torre (lugar onde só ficavam presas políticas), foi colocada na maior cela juntamente com outra presa, Áurea Moretti, com quem conviveu em Cravinhos. Outras presas políticas, como Maria Aparecida dos Santos, a Cidinha, ficaram impressionadas com a serenidade de Maurina, histórias relatadas à jornalista e escritora, Luiza Villaméa, no livro A Torre. Cidinha narrou que dias depois da chegada, Maurina passou diante da cela dela e com um sorriso no olhar disse: “Adeus, vou ficar com minhas irmãs”. As irmãs à qual Maurina se referia eram as religiosas do Bom Pastor, congregação que administrava o Presídio Feminino de Tremembé. Em Tremembé, Maurina se sentiu em casa, acolhida, mas, em março de 1970, ela assistia à TV quando ouviu seu nome na lista dos cinco presos políticos que seriam trocados pelo cônsul japonês, Nobuo Okuchi, sequestrado em São Paulo pela VPR – Vanguarda Popular Revolucionária. Maurina ficou atônita, não queria sair do país. Escreveu uma carta ao ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, manifestando seu desejo de permanecer no país: “Atormenta-me a perspectiva de não poder rezar ajoelhada sobre a terra que me viu nascer.”

 

Cinco meses após ser presa em Ribeirão Preto, e a contragosto, embarcou num avião com outros quatro presos políticos, rumo ao México para onde foi banida. Foram anos de solidão, distante da família, de sua congregação, dos amigos. Anistiada em 1979, julgada e inocentada, madre Maurina Borges da Silveira ainda retornaria ao México para concluir o trabalho social que desenvolveu lá, durante todo o período de seu banimento. Em 1985, voltaria definitivamente ao Brasil. Permaneceu em silêncio, imposto pela congregação da qual fazia parte e foi impedida de receber o pedido de desculpas do Estado pelas torturas e sevícias que sofreu.

 

Em 2011, aos 86 anos, madre Maurina morreu, vítima do Alzheimer. Uma doença que apaga aos poucos a memória. Uma morte significativa de uma mulher, mais uma, vítima da tortura praticada por civis e militares durante a ditadura. Uma tortura também de gênero. Mesmo assim, Maurina repetia que perdoava a todos, como confidenciou a uma cunhada sobre uma sessão de tortura em que seus agressores ficaram nus diante dela: “Ela disse que olhava os homens nus e tinha dó de cada um deles”. Sentimento de

compaixão que também expressou ao saber, em 1979, da morte do delegado Fleury, seu pior torturador: “Que Deus o perdoe.”

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Robêni Baptista da Costa foi presa quatro vezes durante a ditadura civil-militar (1964 – 1985). Quatro anos depois do golpe, a estudante foi pega pelos militares pela primeira vez. Era 12 de outubro de 1968.

Ela estava no 30º Congresso de Estudantes da UNE – União Nacional dos Estudantes, num sítio em Ibiúna, interior de São Paulo. Robêni era da organização do encontro e foi detida.

Ao todo, 400 homens da Força Pública e do Dops – Departamento de Ordem Política e Social prenderam mais de 900 estudantes. 

''Não teve um dia que eu não me lembrasse do período em que eu estive presa, não da tortura propriamente, mas de detalhes, de acontecimentos.'' (Relatório da Comissão Nacional da Verdade - 2014)

ROBÊNI BAPTISTA DA COSTA

No relatório da Comissão Nacional da Verdade, de 2014, a ex-presa política descreve como foi a abordagem: “Acorda, seus vagabundos! Bandidos, vagabundos!” Os policiais empunhavam armas pesadas. Os jovens passaram o dia numa fila enorme. Chovia, fazia frio, tinha muita lama. Para se protegerem, usavam cobertores listrados, chamados de “peleja” porque se cobrisse o pé, descobria a cabeça. “E aí, durante o dia todo andava...era uma marcha, como uma marcha de desabrigados, de exilados, de gente que está na guerra. E eles foram nos colocando nos ônibus muito vagarosamente. Viemos para São Paulo, para o presídio, eu acho que era Presídio Tiradentes, tem gente que diz que não era, mas eu acho que era o Presídio Tiradentes, porque tinha um pátio enorme.” Com medo e na tentativa de não ser presa, Robêni deu o nome de Rosângela Maria Gonçalves. Ao ser perguntada sobre o documento de identidade, disse que tinha perdido: “Não tinha perdido, mas era plausível? Era. Naquela chuva, naquela lama”. E para poupar os familiares, trocou o nome de todos. Ficou três dias detida.

A universitária da USP, filha de lavradores semianalfabetos, nasceu em 1945, na zona rural, chamada Mirassolândia, interior de São Paulo. Como o pai queria dar uma vida melhor aos filhos, principalmente às duas meninas, a família mudou-se para Mirassol onde Robêni pôde estudar. Saiu de lá rumo à capital paulista, prestou vestibular e conseguiu uma vaga no curso de Letras: “Naquela época o estudante de um curso superior poderia dar aulas, porque não havia professor. Eu fui dando aula durante o dia e estudando à noite”. E foi nessa fase que Robêni se envolveu, de fato, na luta contra a ditadura. Na ALN – Ação Libertadora Nacional, ela ajudava na propaganda, produzia panfletos e distribuía. Em 1969, “caiu” pela segunda vez, a primeira com o nome verdadeiro. Como a OBAN – Operação Bandeirante, ainda estava se estruturando, não tinha a ficha da primeira prisão dela, e sim da tal “Rosângela”. “Fui torturada? Fui, mas era diferente. O delegado que era de Santos, a cada três dias ele voltava e me interrogava. Ele me dizia pra escolher choque ou cadeira do dragão, que naquele momento eu nem sabia o que era, ou resolver o problema da mulher dele que era professora em dois ou três cursinhos. Então ele trazia umas 400 redações pra eu corrigir; eu passava 12 horas corrigindo redações. E eu corrigi direito, nunca fiz sacanagem. E eu era muito boa nisso.”

Libertada um mês depois, voltou a dar aulas e a estudar. Robêni ajudou a reorganizar a UEE – União Estadual dos Estudantes. E foi na UEE que ela conheceu Alcides Mamizuka, que também foi preso político, e com quem se casaria mais tarde. Continuou a fazer panfletagem e recebeu da ALN a tarefa de traduzir do espanhol o livro Da Guerra, de Carl von Clausewitz, escrito no século XIX, sobre a guerra humana; guerrilha urbana. Ao mesmo tempo o companheiro dela estava imprimindo o Minimanual do Guerrilheiro Urbano, de Carlos Marighella. “Eu dava aula à noite e durante o dia trabalhávamos no manual, a gente imprimia milhares, em casa, e distribuía dentro do movimento estudantil. E aí eu fui presa de novo, em janeiro de 1971”. Desta vez ela sentiu a mão pesada dos torturadores: “Tinha um cara chamado JC, ele se autodenominava Jesus Cristo, tinha um cabelo comprido, barba, usava uma cruz imensa no pescoço, caiu na mão dele você estava ‘fodida’. E eu caí na mão dele. No momento da prisão ele me deu um murro tão grande que me arrebentou dois dentes da arcada inferior”. O murro fez com que Robêni desmaiasse e assim chegou à OBAN. Ela foi jogada na cela, as outras presas políticas a orientaram a ficar “desmaiada” para escapar da tortura, até que não deu mais para enganar os torturadores. Robêni e a jornalista Márcia Coelho, da Band, foram colocadas na mesma sala de tortura. “Eu não conhecia ela, nunca tinha visto. E aí trouxeram a moça, ela tinha um seio muito grande, numa época que cirurgia do seio era pra alta burguesia, né? Como ela tinha um seio muito grande, ele (JC) começou a rir dela, tirou a roupa dela, tirou a minha roupa e fez o pessoal da guarda, que era do exército, passar em revista a gente, sem roupa, peladas, as duas peladas, e os caras batendo continência para nós. Olha, uma coisa tremenda.”

Nos dois anos de prisão, a tortura era uma rotina diária e seguia um roteiro macabro: pelada, tomava choque na vagina, no ânus e, na prática, conheceu a cadeira do dragão: “Tinha uma chapa de metal nas costas, no assento e nos braços. Amarrava a gente pelos braços e pernas, eles jogavam água pro choque ser mais forte. Dava choque, dava choque, ia perguntando, perguntando”. Robêni se orgulha de não ter entregado nenhum companheiro de luta porque dava os nomes de dois contatos que não estavam mais no Brasil. A ex-presa política consegue falar sobre torturas sofridas, até de uma pouco comentada: furar petróleo. Abaixada, com um dedo no chão, a pessoa tinha que girar em torno dele: “Dez minutos, 15 minutos, meia hora, uma hora, você está morta no chão”. Mas Robêni jamais conversou sobre tortura com seu companheiro. Ela que foi obrigada a acompanhar uma sessão de tortura de Alcides Mamizuka. Ele estava no pau de arara, baleado em cinco lugares e, num deles, tomava choques elétricos. Uma imagem impossível de esquecer. “Uma memória horrorosa. É tão horroroso que eu jamais consegui falar com ele sobre a tortura. E nós ficamos casados tantos anos. Nós temos dois filhos juntos, nós temos netos juntos. Com outras pessoas eu consigo falar, mas com ele eu não consigo falar. Já tentei, aí começo a chorar.”

Robêni foi condenada a quatro anos e meio de prisão por causa da tradução do livro Da Guerra; cumpriu dois anos, a maior parte no Presídio de Tiradentes, na torre das donzelas, local onde só ficavam presas políticas. Ela saiu em liberdade condicional e com uma recomendação do juiz de que voltasse a estudar ou trabalhar no máximo em 45 dias. “O juiz se chamava Nelson Guimarães, ele era violento, gritava com a gente e gritou comigo que se eu voltasse a ter qualquer participação política eu iria acordar na calçada de Campinas (onde morava) com a boca cheia de formigas”. Robêni não seguiu o conselho do juiz, continuou na luta política, pelos direitos humanos, pela liberdade de pensar diferente de quem está no poder. Ela se tornou professora, fez mestrado; ajudou a fundar o PT – Partido dos Trabalhadores; foi subprefeita de Barão Geraldo, distrito de Campinas, por quatro anos (2002 – 2006) e hoje, com mais de 80 anos, sente satisfação por ter contribuído com a democracia no país e as novas gerações, como seus netos, a terem uma preocupação com os outros, com questões sociais pelas quais tanto batalhou: “Eu acho que dei minha contribuição e continuo dando. Passei minha luta pra minha família.”

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O Brasil daquela época era o Brasil dos militares que deram o golpe na democracia brasileira, em 1964. Rosemeire Nogueira, ou Rose Nogueira, como é mais conhecida, afirma que o golpe não foi no dia 31 de março, como está registrado na história oficial; “foi sim”, diz ela, “no dia primeiro de abril”. E não foi uma mentira, mas uma verdade dolorosa que durou longos 21 anos. Foram 7.670 dias e noites de medo, de prisões arbitrárias, torturas, mortes, desaparecimentos, vidas destruídas para sempre.

Rose tinha 23 anos quando foi presa. Ela trabalhava no Jornal Folha da Tarde, na capital de São Paulo.

''Quem passa por uma experiência dessas não pode esquecer e não tem o direito de esquecer porque tem a obrigação de contar para as próximas gerações o que aconteceu no Brasil daquela época.'' (Depoimento ao Memorial da Resistência - SP)

ROSE NOGUEIRA

Era dia 4 de novembro de 1969, mesmo dia do assassinato de Carlos Marighella, fundador da ALN – Ação Libertadora Nacional, o maior grupo armado de oposição aos militares. A jornalista havia acabado de dar à luz um menino, a exatos 33 dias, quando foi levada, assim como o marido, o também jornalista Luiz Roberto Clauset, para o DOPS.

No Departamento de Ordem Política e Social, foi torturada pelo delegado Sérgio Fleury. Em depoimento ao Memorial da Resistência, Rose o descreve como uma pessoa “absurda, dava medo até de olhar para a cara dele”. Os homens que trabalhavam na equipe de Fleury eram tão violentos quanto o chefe da OBAN – Operação Bandeirante, órgão repressor e de tortura, um esquadrão da morte.

A jornalista sofreu violências físicas, psicológicas e sexuais enquanto esteve no DOPS. Puérpera, seus seios estavam cheios de leite. No Relatório da Comissão Nacional da Verdade (2014), contou como foi tratada por um dos seus algozes: “Eu estava sangrando muito e eu não tomava banho, eles não deixavam tomar banho. E tinha o leite e cheirava azedo. E eu estava sangrando. Aí eu apanhei porque estava sangrando e ele ficou com nojo. Aí eu apanhava porque eu estava fedida.”

Rose não consegue esquecer o dia em que tentava se limpar do sangue por causa de uma hemorragia e um torturador chegou com um jornal e mostrou para ela o título de uma reportagem: “Miss Brasil ganha concurso da vaca leiteira”. Como ela tinha leite em seus seios, ele a apelidou de miss Brasil e esfregou o jornal no corpo nu de Rose gritando que ela era uma “vaca leiteira, vaca terrorista”. Impedida de amamentar, Rose foi forçada a tomar uma injeção: “Veio um enfermeiro logo depois pra me dar uma injeção pra cortar o leite. Porque esse Tralli [torturador] dizia que o leite atrapalhava ele. Então, essa foi também uma das coisas horríveis, porque enquanto você tem o leite, você está ligada com o seu filho, né? Me deram uma injeção à força, eu não quis tomar, briguei e tal, empurrei aquela coisa. Ele me pegou à força e deu injeção aqui na frente, na frente da coxa. Depois ele me falou: ‘Cortar esse leitinho aí, tirar esse leitinho’.” E o leite secou. Além dessas agressões, a jornalista sofreu abuso sexual enquanto esteve no DOPS: “Outra coisa é que eles me tiravam a roupa, tinha uma escrivaninha e eles me debruçavam nua com o bumbum para cima e eles ficavam enfiando a mão. Penetração, não tive. Ele me beliscou inteira, esse Tralli. Ele era tarado”. O Relatório da Comissão Nacional da Verdade deixa claro que “os crimes sexuais não se limitam à violência física, podendo, inclusive, não envolver contato corporal, como é o caso da nudez forçada.”

Rose Nogueira foi presa porque deu apoio a membros da ALN. Ela cedia o apartamento para que eles se reunissem, mas ela e o marido não participavam desses encontros, os dois ficavam no quarto. Certa vez, recorda com carinho, Carlos Marighella participou de uma dessas reuniões e deu de presente a ela um livro sobre parto sem dor. O bebê, assim como seus sogros e pais foram levados para o DOPS e usados para ameaçá-la a contar o que sabia: “Mas eu não sabia de nada”. Na véspera do Natal, em 1969, com prisão preventiva decretada, foi transferida para o Presídio Tiradentes, ficou na torre das donzelas e dividiu a cela com pelo menos 50 mulheres ao longo de nove meses de prisão, entre elas Dilma Rousseff: “Ela era uma moça de óculos, estudiosa, bem-humorada, colocava apelido em todo mundo”, contou em entrevista à Revista Novo Tempo. Depois de solta, a jornalista continuou a ser vigiada até 1972. Foi julgada e absolvida do crime que não cometeu.

Por causa da infecção puerperal que teve durante sua detenção no DOPS, Rose Nogueira nunca mais pôde ter filhos, ficou estéril.

Essa é uma das cicatrizes da tortura. A outra, são os resquícios da ditadura na “filosofia” da polícia militar. Rose sempre reforça em suas falas que “nos ensinamentos, treinamentos da polícia militar ainda existem muitos conceitos daquela época. Eles trabalham com a doutrina da guerra, onde o outro é inimigo, o outro é a população.”

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Filha de pais semianalfabetos - a mãe trabalhava numa fábrica de tecidos, o pai tinha um caminhão de gasolina, os tios eram todos pedreiros - Vilma Aparecida Barban construiu uma história diferente de sua família. Com o apoio dos pais, fez da educação uma meta. Ela nasceu em Campinas, em 1946, se tornou economista, educadora, pesquisadora, fez mestrado em sociologia. Ela é uma das centenas de mulheres que participaram ativamente da luta contra a ditadura militar; muitas morreram, outras estão desaparecidas, várias passaram pelas mãos de torturadores.

''Então você ficava na cela e tinha aquele barulho de chave e todo mundo já ficava, tipo, quem será de nós que vai?''

VILMA APARECIDA BARBAN

Carregam no corpo e nas lembranças as marcas das agressões. Como esquecer? A dor torna-se maior porque os torturadores não foram condenados pelos crimes de lesa-humanidade e se beneficiaram da Lei de Anistia de 1979. Vilma tem uma opinião sobre a anistia: “Eu acho que é uma vergonha em termos do que a justiça deve ser, quer dizer, como é que você, do Estado, anistia a si próprio? Torturador e torturado ficam na mesma categoria?”

Antes de chegar à universidade, já a partir do colegial, ela trabalhava durante o dia e estudava à noite. E desde essa época tinha preocupação social; envolveu-se com o grêmio estudantil e com um grupo que dava aulas na periferia da cidade. A inspiração para ensinar vinha do “método” de Paulo Freire que, grosso modo, utiliza a própria realidade do aluno, sua perspectiva e contexto, na alfabetização. Ao entrar no curso de biologia na USP e passar a morar no CRUSP, o conjunto residencial da universidade, Vilma se envolveu no movimento estudantil. Ela entrou para o Partido Comunista e depois para a ALN – Ação Libertadora Nacional. Era um tempo de revolta contra o golpe de 1964, tempo de protestar e lá estava Barban em meio a milhares de outros estudantes em manifestações públicas.

A campineira tinha 23 anos quando, na madrugada do dia 17 de dezembro de 1968, numa verdadeira operação de guerra, o exército com seus tanques e soldados cercaram o CRUSP. Quatro dias antes, o general-presidente Artur da Costa e Silva assinara o Ato Institucional número cinco (AI-5) que cassava todas as garantias institucionais. Iniciavam-se os anos mais sangrentos da ditadura. Os estudantes moradores do residencial, como Vilma, que não tinham condições de pagar por moradia, ou porque eram de outras cidades, ou porque moravam em bairros distantes, não ofereceram nenhuma resistência. Dos 1.800 que viviam oficialmente na moradia estudantil, havia naquela madrugada 800, a maior parte foi liberada rapidamente do DOPS. Vilma ficou um dia detida e, quando saiu, teve que se mudar para um apartamento junto com uma colega, no bairro de Pinheiros, não era seguro voltar ao CRUSP.

Em outubro de 1969, Vilma foi presa pela segunda vez. Em 2014, no depoimento à Comissão Nacional da Verdade, diante do que viu passar outras pessoas, relativizou a própria dor: “Quando eu penso nas pessoas que eu vi aos pedaços, você faz uma gradação e fala: ‘...bom, não me deixaram aos pedaços’.” Ainda que julgasse que a sua dor era menor do que de outras presas e presos políticos, descreveu o passo a passo das agressões físicas enquanto esteve na OBAN – Operação Bandeirante: “Tapas, choque elétrico nas mãos, nos pés, nas pernas - eu não tive isso de choque na boca - e muita pressão psicológica. Eu levei um monte de choque, não fui para o pau de arara”. Vilma ficou em torno de quinze dias na OBAN, depois foi levada para o DOPS com um grupo de pessoas: “Era um horror porque eles pegavam um de noite, alguém que desaparecia e o terror maior de todo mundo no DOPS era que tinha o Fleury. Se eles nos chamam, não sai vivo, era um cenário de horror. Muita gente machucada, estropiada, muitos caras que iam para a sala de interrogatório arrastados porque tinham que ir e não conseguiam mais ficar em pé.”

Do DOPS foi levada para o Presídio Tiradentes, chegou num micro-ônibus com outras mulheres e ficou na chamada “torre das donzelas”. Para Vilma, a convivência com outras mulheres da torre foi como estar em uma universidade: “Até a Dilma estava lá; tinham pessoas magníficas, assim, magníficas no sentido de quanto que contribuiu porque era uma vida disciplinada e muito. A gente estudava, fazia grupo de estudo, fazia ginástica, fazia comida era... para não deixar ninguém se abater.”

Das mulheres que ali estavam, ninguém saiu ilesa das torturas psicológica e físicas. Vilma Barban, durante o testemunho à CNV, reclamou de sua memória: “Eu não confio na minha memória, eu tenho brancos e sempre tive. Tenho um pouco da esclerose da idade”. Mas a respeito do tempo encarcerada sem nenhuma acusação formalizada, a memória de Vilma não falhou: “Eu fiquei de outubro de 69, eu não tinha culpa formalizada, e aí começa o julgamento, em 71, sendo que em agosto de 71 encerra o julgamento e eu sou liberada porque não conseguiram provar nada.”

Vilma Barban morreu em 2018, deixou um legado de luta contra a tortura praticada pelo Estado, contra a tortura de gênero que desqualifica a mulher. Vilma, quando perguntada pela CNV a respeito da igualdade de oportunidade nas organizações, fez uma breve análise sobre esse assunto: “Entrou para a luta, mas a relação é machista, é autoritária e é difícil mesmo, não é? Agora, eu não sei, digamos, a nível da escala de poder na ALN ou nas outras organizações, eu não posso responder isso. O que eu percebo são nas relações pessoais que as pessoas tinham com os seus companheiros, fosse ele da luta ou não, mulheres extremante conscientes, mas que tinham, sim, um marido e quase apanhavam em casa. Então eu acho que a igualdade de gênero ela ainda é uma luta a ser vencida. É uma briga, um embate feio ainda.”

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A ex-presa política Darci Toshiko Miyaki, advogada, aposentada, iniciou em 2013 seu depoimento à Comissão Nacional da Verdade, audiência pública com as vítimas do DOI-Codi de São Paulo, esclarecendo que “embora a ditadura nos taxasse de terroristas, não éramos terroristas.

 

Nós éramos jovens idealistas com o dever de lutar contra uma ditadura. Nós tínhamos esse direito e o dever, principalmente”. Darci contextualizou o direito suprimido pelo golpe de 1964 afirmando que antes do golpe militar havia uma Constituição, um presidente eleito, João Goulart 

''Eu não sei descrever o que significa pra uma mulher um torturador introduzir o dedo, com fio elétrico, na sua parte mais íntima. Sabe, isso me marcou muito.''

DARCI TOSHIKO
MIYAKI

(1961 – 1964), e lembrou dos malefícios causados pela​ supressão dos direitos civis e sociais por causa do retrocesso da democracia brasileira.

Darci nasceu, de fato, em 13 de julho de 1945, mas no registro consta o dia 3. Militante da Ação Libertadora Nacional, atuava na área estratégica da organização. Foi presa aos 26 anos, em janeiro de 1972. Ela se lembra exatamente do horário: “12:02, no Leblon, Guanabara”. Outra lembrança nítida que Darci tem é que foi pega por vários homens e jogada no “chão” de um opala branco. Seus sequestradores colocaram um capuz preto nela e, ali mesmo, começaram a chutar a jovem. Ela passou por um corredor polonês e a cada queda, por causa das agressões, era levantada pelo cabelo comprido. Essa recepção foi só uma pequena demonstração do que sofreria. No dia 28 de janeiro, Darci foi transferida para o DOI-Codi, em São Paulo, onde continuou a ser torturada. Além de seu sofrimento, ela ouvia os gritos de dor de outro preso político, Hélcio Pereira Fortes, torturado numa sala ao lado. Darci fez questão de relatar essa passagem porque a morte de Hélcio, num suposto tiroteio, tinha sido anunciada pela imprensa no dia em que ele e Darci, na mesma viatura, estavam sendo transferidos do Rio com destino à capital paulista: “É uma farsa terrível. Ele estava ali, a poucos metros de mim, sendo torturado. Eu ouvi os gritos dele nos intervalos da minha tortura, enquanto me faziam perguntas, eu ouvia os gritos do Hélcio.”

Ouvir o sofrimento de um companheiro de luta é também uma tortura. O sequestro político de Darci, no DOI-Codi, como ela faz questão de afirmar, durou cerca de sete meses. No período de quase um mês, ia da solitária para a sala de tortura onde se revezavam três equipes de torturadores, entre eles Aparecido Laertes Calandra, o capitão Ubirajara. A ex-presa contou que quando ele não a estava agredindo no pau de arara, na cadeira do dragão, ficava assistindo às torturas praticadas pelos outros algozes. O olhar “frio” desse homem a perseguiu por muitos anos de sua vida. Foi o capitão Ubirajara quem disse a Darci que “O

Hélcio está sendo empalado”. Ela afirmou na audiência pública que seu companheiro de militância, sob tortura dos agentes do DOI-Codi-SP, numa solitária, “provavelmente morreu no dia 30 ou 31 de janeiro”. Nas sessões em que apanhava, Darci levou choques elétricos nos ouvidos, dedos das mãos e pés e muitos choques na vagina: “Pra nós mulheres, e eu acho que ‘pros’ companheiros também, é uma coisa muito violenta. Eu já relatei esse fato, não é nem nojento, eu não sei descrever o que significa pra uma mulher, um torturador introduzir o dedo, com fio elétrico, na sua parte mais íntima. Sabe, isso me marcou muito”. Uma violência impossível de mensurar. Devido a essas agressões, Darci sofreu hemorragias a ponto de ter que ser levada “por duas ou três vezes” ao Hospital das Clínicas de São Paulo.

Com uma voz forte, mas os olhos cheios de lágrimas, a militante revelou à CNV que uma das consequências das torturas sofridas é ter se tornado uma mulher estéril. O estrago feito pela ditadura militar marcou não somente o corpo, também, e profundamente, destruiu o seu psicológico. Com uma profunda dor interior, fez questão de deixar registrado como a tortura afetou a intimidade de sua vida afetiva: “Depois que saí da cadeia do Hipódromo, eu tentei ter um relacionamento com um companheiro, infelizmente não deu certo. Desculpa, é uma coisa muito íntima e é duro falar sobre isso, sabe? Mas eu acho que tem que ser registrado. Por mais que me doa, eu tenho que falar. O ato sexual se tornou uma coisa, assim, muito difícil pra mim. Então, o que posso dizer: me tornei uma mulher estéril e sem companheiro”. Ao todo, Darci cumpriu 1 ano e 6 meses de prisão; ficou encarcerada, além dos três dias no Rio de Janeiro, no DOI-Codi, Presídio Tiradentes e Presídio do Hipódromo, em São Paulo.

Determinada a manter viva essa triste memória do Brasil, Darci Toshiko Miyaki, ao depor à Comissão Nacional da Verdade, já alertava sobre a importância de que a justiça fosse feita para evitar que essa história se repetisse. Esclareceu que suas denúncias não eram um desejo de vingança, de revanche: “Jamais faríamos o que eles fizeram conosco”. Entretanto, reforçou a necessidade de que tanto a CNV como as vítimas da ditadura civil-militar brasileira não deixassem cair no esquecimento esses 21 anos sombrios do nosso país. Para ela, preservar essa memória é uma forma de educar as novas gerações que simplesmente desconhecem o que se passou entre 1964 e 1985. Darci fez, então, um alerta: “Caso não façamos isso, os Amarildos continuarão (Amarildo Dias de Souza. Em 2013, o ajudante de pedreiro foi detido por policiais militares em sua casa na Comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro e está desaparecido até hoje); porque tudo continua igual. Nas delegacias, torturam, matam, sequestram e desaparecem com os corpos.”

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A memória de Dulce Maia por vezes “falhava” durante o depoimento à Comissão Nacional da Verdade, em 2014. Em vários momentos, dizia “as palavras me fogem”, mas que “daqui a pouco eu lembro”. Porém, uma lembrança ficou marcada: o rosto do sargento que a estuprou diversas vezes enquanto esteve presa no quartel da polícia do exército. “Eu me lembro muito bem daquele que colocava na minha vagina, o arame, choque. Era um sargento de uma cara gorda, redonda e dizia que eu iria parir eletricidade.”

''Eles me davam muito, muito choque na vagina, inclusive nos olhos, na narina, na pálpebra, no bico de seio. Eles eram umas bestas-feras.''

 

DULCE MAIA

Na madrugada do dia 26 de janeiro de 1969, a produtora cultural foi presa na casa de seus pais, no bairro nobre do Brooklin. Sua mãe, que assim como seu pai, era uma militante política (foi presa durante a ditadura de Getúlio Vargas - 1937 e 1945), tentou impedir a prisão da filha e “pulou” em cima de “um sargento grande, negro, grandão, sargento Robertão”, justamente quem iria lhe agredir dentro do carro até o quartel. Ao chegar à polícia do exército, Dulce passou por um corredor polonês e em seguida foi amarrada. A partir desse momento a tortura repetiu o roteiro da cartilha do torturador do Estado civil-militar do Brasil: “Fiquei de cabeça dependurada, com os braços soltos, recebendo água nas marinas. Eu estava toda rasgada porque no carro rasgaram minha roupa”. O depoimento de Dulce Maia à CNV é mais um entre tantos que chocam pela perversidade: “Eles me davam muito, muitos choques na vagina, inclusive nos olhos, na narina, na pálpebra, muito choque no bico do seio. Eles eram umas bestas-feras”. Em seu depoimento, declarou que de todas as torturas sofridas, a pior era ver alguma companheira ou companheiro de luta ser torturado na sua frente: “eles sempre faziam com que a gente visse, para chocar a gente, amedrontar a gente.”

Dulce Maia nasceu em 1937. Aos 17 anos começou a militar politicamente. Por volta dos 30 anos, quando foi presa, fazia parte da Vanguarda Popular Revolucionária, participava da guerrilha urbana em São Paulo, capital, escondia militantes de organizações clandestinas. Era uma exímia motorista de ação da VPR. Dulce foi a primeira mulher a ser presa e torturada na ditadura pós-golpe de 1964 por participar da luta armada. Entre a prisão na polícia do exército, onde era torturada, e as idas ao DOPS, ficou cinco meses incomunicável. Apesar das torturas diárias no quartel, disse que não se curvava, não cedia, postura que deixava seus algozes mais cruéis: “Eles tinham ódio à minha pessoa, mas tanto ódio... Eles nem perguntavam muito para mim, eles queriam era me bater, eles queriam me arrebentar, eles queriam falar coisas indecentes para mim.”

Nas sessões de tortura havia mulheres, não como agentes da tortura, mas como espectadoras, não agrediam fisicamente, mas a constrangiam e ficavam “torcendo, achando bom, sabe?”. Dulce Maia recebeu uma aplicação de Pentotal, usado como hipnótico, e escapou, por “sorte” da segunda dose: “Eles quiseram me hipnotizar, não conseguiram, ameaçaram me mandar para o manicômio.

 

Eles me ameaçaram de morte, eu fui com a equipe do Fleury para a rodovia, que hoje é a Castelo Branco, que estava em construção”. Ali eles simularam um fuzilamento de Dulce, com a presença do próprio Sérgio Fleury, um dos mais terríveis torturadores.

A militante foi a primeira presa política a ser levada para a torre, centenária, do Presídio Tiradentes. Era maio de 1969. Algemada, com as mãos para trás, ficou apavorada ao passar pelo corredor aberto onde ficavam as presas comuns em “jaulas”. Ao chegar à torre, sozinha, ocupou uma cela suja, úmida, escura: “Eu ficava pouco no Tiradentes, eu ia e voltava”. Sim, Dulce intercalava passagens pela torre, era levada ao DOPS, voltava para a prisão no quartel da polícia do exército, onde era sistematicamente torturada. Nessas idas e vindas, passou pela Penitenciária Feminina, no Carandiru, administrada pelas freiras do Bom Pastor, onde, segundo ela, era bem tratada. Numa dessas passagens, soube da morte de sua mãe. A madre diretora até tentou a permissão para que Dulce fosse ao enterro da mãe, mas o juiz negou.

Em junho de 1970, pesando 38 quilos, Dulce deixou o cárcere em troca do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben sequestrado, no Rio de Janeiro, pela Ação Libertadora Nacional e a Vanguarda Popular Revolucionária. Ela foi uma das 40 presas e presos políticos libertados da prisão e banidos do Brasil. O destino do avião levando os militantes de esquerda era a Argélia. Debilitada em decorrência das torturas, deixou a ex-colônia francesa e buscou tratamento médico em Cuba. Esteve no Chile, México, Bélgica, Portugal e Guiné-Bissau, antes de retornar ao Brasil, em 1979, por causa da Lei de Anistia. Dulce Maia, a primeira mulher a ser presa e torturada no Brasil por participar da luta armada, foi também a primeira exilada a retornar ao país, quase uma década depois. Até o fim de sua vida, em 2017, carregou no corpo e na mente as sequelas das torturas sofridas, ainda assim nunca deixou de lutar como ativista política, cultural e social.

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Helenira Resende de Souza Nazareth nasceu no interior de São Paulo, em Cerqueira César, no dia 11 de janeiro de 1944. Era comunista de berço. Seu pai, o médico Adalberto de Assis Nazareth, comunista, sempre esteve envolvido nas causas políticas e sociais. Sua mãe, Euthália Resende de Souza Nazareth, era professora. Quando a família se mudou para Assis, Helenira seguiu os passos paternos na luta por justiça social. Na escola estadual Dr. Clybas Pinto Ferraz, se tornou a primeira presidenta do grêmio estudantil.

''Cercada pela patrulha militar que a caçava, Helenira Resende de Souza Nazareth foi metralhada nas pernas. Caiu atirando.''

HELENIRA RESENDE DE SOUZA NAZARETH

Nos esportes também se destacava. Ela jogou na seleção de basquete de Assis, chegou a ser considerada uma das melhores jogadoras da região e ganhou diversas medalhas em outra modalidade esportiva: o salto em distância. Mas a carreira esportiva ficou para trás quando decidiu morar na capital paulista e estudar Letras na USP. Dona de uma oratória envolvente, “Preta”, como era chamada carinhosamente pela família e amigos, justamente por ser uma mulher negra, começou a ganhar visibilidade na luta política e de resistência. Helenira estudou a teoria marxista e não demorou a ser uma líder estudantil. Em 1968, elegeu-se vice-presidente da União Nacional dos Estudantes. Oradora por excelência, participava com “fervor” das manifestações e protestos estudantis depois do golpe militar de 1964.

A primeira detenção de Helenira aconteceu em 1967, aos 23 anos, por causa de uma pichação contra a ditadura com os dizeres “Abaixo as Leis da Ditadura”, conforme consta do boletim de ocorrência do Departamento de Ordem Política e Social. Em maio de 1968, novamente foi detida por propor aos estudantes que participassem de uma passeata contra o regime militar. Ainda em 1968, a polícia a prendeu pela terceira vez, durante o congresso clandestino da UNE, em Ibiúna, no interior paulista. Preta estava entre os mais de 800 estudantes presos. Levada ao Presídio Tiradentes, na capital, Helenira foi transferida ao DOPS e torturada pelo delegado Fleury, que a jurou de morte. A família dela conseguiu localizá-la e um habeas corpus a libertou um dia antes da edição do AI-5, Ato Institucional que derrubava todas as garantias individuais. Helenira era filiada ao partido PCdoB – Partido Comunista do Brasil. Depois de deixar a prisão, entrou para a clandestinidade e se recusou a deixar o país.

No final da década de 60, decidiu ir ao Araguaia, na região Norte, no Pará. Ganhou o codinome de “Fátima” e entrou para a guerrilha rural armada. Crítica feroz das arbitrariedades do regime civil-militar e das desigualdades sociais, participou ativamente da organização dos trabalhadores na questão da luta por terra, contra a “grilagem”, além de prestar serviços sociais à população pobre, como alfabetização e atendimento médico. Em 1972, tiveram início as operações militares contra os avanços da guerrilha dos militantes de esquerda. Nessas operações, que se estenderam até 1975, de acordo com o artigo escrito pelo coronel do Exército, Álvaro de Souza Pinheiro, para a revista Airpower Journal, de 1995, a Força Aérea Brasileira teria usado até mesmo Napalm (bastante utilizada pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnã, de 1955 a 1975). Essa bomba incendiária, cujo uso contra civis foi proibido, é devastadora, se alastra rapidamente e destrói toda a vegetação por ela atingida; nas pessoas, gruda no corpo.

E foi nesse cenário de confronto entre guerrilheiros e militares que, em 29 de setembro de 1972, numa emboscada no meio da mata, Helenira caiu atirando. Ângelo Arroyo, dirigente do PCdoB, escapou do cerco militar no Araguaia, em 1974. Ele descreveu em seu Relatório Arroyo como se deu a morte de Helenira: “Ela, juntamente com outro companheiro, estava de guarda num ponto alto da mata para permitir a passagem, sem surpresas, de grupos do destacamento. Nessa ocasião, pela estrada vinham tropas. Como estas achassem a passagem perigosa, enviaram ‘batedores’ para explorar a margem da estrada, precisamente onde se encontrava Helenira e o outro companheiro. Este, quando viu os soldados, acionou a metralhadora, que não funcionou. Ele correu e Helenira não se deu conta do que estava sucedendo. Quando viu, os soldados já estavam diante dela”. No tiroteio que se seguiu, “Fátima” matou um militar. Em resposta, a guerrilheira foi metralhada nas pernas e, mesmo caída, sacou um revólver e feriu outro soldado. Presa, foi torturada até a morte com golpes de baioneta. O corpo de Helenira teria sido enterrado no local chamado “Oito Barracas”, porém jamais foi encontrado, assim como o da maioria dos guerrilheiros, entre eles muitos moradores e trabalhadores que lutavam ao lado dos combatentes do Araguaia.

Alguns ex-presos e ex-presas políticos que conseguiram escapar com vida da Guerrilha do Araguaia, como Elza de Lima Monnerat e Danilo Carneiro, confirmaram que Helenira foi morta sob tortura. Danilo, ao ser pego pelo Exército, afirmou ter visto álbuns com imagens de guerrilheiros mortos. Os militares mostravam as fotos para que ele os identificasse: “Eles iam matando e riscando os nomes do álbum”. Entre as fotografias, viu a do corpo de Helenira. Ela tinha 28 anos.

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Maria Lúcia Petit da Silva foi morta aos 22 anos por agentes do Estado brasileiro no dia 16 de junho de 1972; seu corpo ficou desaparecido até a década de 1990.

Nascida em 20 de março de 1950, em Agudos, São Paulo, Petit se engajou desde cedo nas questões sociais, num momento em que o Brasil era capturado cada vez mais pelos anos tenebrosos da ditadura militar.

''O laudo da Unicamp mostrou que Petit foi atingida por um tiro no quadril e outro tiro, o fatal, foi disparado de cima para baixo. A conclusão é de que ela, caída, foi executada.''

MARIA LUCIA
PETIT DA SILVA

Quatro anos após o golpe militar de 1964, em 1968, entrou para o movimento estudantil secundarista. Em 1969, lecionava como professora primária na rede municipal, ensinando crianças da zona norte da capital paulista.

No ano seguinte, decidiu se mudar para o interior de Goiás e de lá seguiu para o sul do Pará, na região do Araguaia, lugar de conflito entre grileiros, fazendeiros e de camponeses miseráveis em busca do direito à terra. Dezenas de militantes de esquerda, de diferentes lugares do país, muitos deles estudantes, se envolveram nessas questões entre os anos de 1967 e 1974.

Maria Lúcia era militante do Partido Comunista do Brasil que optou pela luta armada, uma tentativa de replicar no país a guerrilha rural pela reforma agrária da Revolução Chinesa.

Ao se instalar no Araguaia, continuou a ensinar crianças pobres e a trabalhar como lavradora. Vivia o dia a dia da comunidade. Posteriormente, na luta por uma revolução social que tirasse da miséria a população local, decidiu pegar em armas. Fazia parte do Destacamento C que atuava na região de Caianos.

A estimativa é que do confronto entre o exército e guerrilheiros morreram 31 camponeses e 67 guerrilheiros. Petit estava entre os mortos.

A “queda” de Maria Lúcia consta do Relatório Arroyo, escrito pelo dirigente do PcdoB, Ângelo Arroyo, um dos poucos que conseguiram escapar do cerco das tropas do exército no Araguaia.

A história relata que ela estava com outros dois companheiros: Mundico (Rosalindo Souza), Cazuza (Miguel Pereira dos Santos). Os três caíram em uma armadilha montada, com a ajuda dos soldados, pelo camponês João Coioió. João parecia ser de confiança, pois já havia colaborado com os guerrilheiros diversas vezes.

Na noite fatídica, em São Geraldo, quando ficou combinado que Coioió levaria mantimentos aos militantes do PcdoB, Cazuza teria ouvido alguém dizendo “pega, pega”, porém acharam que não era nada. Por segurança, “Maria” (codinome de Maria Lúcia), Cazuza e Mundico resolveram acampar a alguns metros dali.

No dia seguinte, ao se aproximarem da casa do camponês, eles ouviram um barulho que parecia ser de pilão batendo. Com cautela, escondendo-se atrás de árvores, foram se aproximando. Petit ia à frente quando, a poucos metros da casa, numa emboscada, foi ferida por um tiro e caiu.

Helicópteros sobrevoaram a área por onde escaparam Mundico e Cazuza. Soldados metralharam as imediações. Era dia 16 de junho de 1972.

Mundico e Cazuza chegaram com vida ao acampamento onde estavam outros companheiros que os aguardavam, entre eles Jaime Petit, irmão de Maria Lúcia, e Regilena Carvalho Leão de Aquino, companheira de Jaime, uma das poucas sobreviventes da Guerrilha do Araguaia.

Em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, em 2013, sobre a Guerrilha, Regilena contou que eles ficaram sabendo que Maria Lúcia Petit havia sido morta em combate. Além dela, dona Julieta Petit da Silva e seu José Bernardino da Silva Júnior perderam também Jaime e Lúcio Petit. Assim como a irmã Maria Lúcia, eles eram militantes de esquerda e guerrilheiros do Araguaia. Os dois foram assassinados tempos mais tarde pelas tropas do exército.

Em 1991, duas ossadas, de um homem e de uma mulher, foram exumadas no Cemitério de Xambioá, que na época ficava em Goiás e hoje é território de Tocantins. Em 1996, o Departamento de Medicina Legal da Unicamp identificou a ossada da mulher como sendo de Maria Lúcia Petit da Silva, a primeira a ser identificada entre os guerrilheiros mortos e desaparecidos no Araguaia. O laudo mostrou que Petit foi atingida por um tiro no quadril e o outro, o fatal, foi disparado de cima para baixo. A conclusão é de que ela, caída, foi executada.

No dia 16 de junho de 1996, dona Julieta Petit da Silva pôde, finalmente, enterrar sua filha no cemitério de Bauru, 24 anos depois de seu assassinato. Dona Julieta morreu em 2007, sem ter conseguido encontrar os restos mortais dos seus outros dois filhos, Jaime, morto aos 28 anos, em novembro de 1973; e Lúcio Petit da Silva, morto aos 31 anos, em abril de 1974, ambos desaparecidos no Araguaia.

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O caso da morte da militante de esquerda Iara Iavelberg é mais um exemplo de como a verdade sobre as torturas, os assassinatos e os desaparecimentos de presas e presos políticos da ditadura civil-militar (1964–1985) foi sistematicamente camuflada.

''A descrição do laudo necroscópico oficial não é compatível com suicídio.''


IARA IAVELBERG

A citação acima é do médico legista Daniel Romero Munõz, então professor da Faculdade de Medicina da USP. Ele foi o responsável pela necropsia dos restos mortais de Iara, exumados em 2003. O resultado dos exames comprovou que Iara tinha sido assassinada no dia 20 de agosto de 1971, aos 27 anos, durante a Operação Pajussara, comandada pelo DOI-CODI, em Salvador. Ela era uma das pessoas mais procuradas pelos órgãos de repressão do Estado. O motivo principal? Seu envolvimento amoroso com Carlos Lamarca, o ex-capitão do exército e líder da luta armada contra a ditadura. A psicóloga e professora universitária atuava no Movimento Revolucionário 8 de Outubro, mas antes tinha sido integrante da Organização Revolucionária Marxista - Política Operária; da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares e da Vanguarda Popular revolucionária.

Nascida em São Paulo, de família judaica, formou-se em Psicologia na USP, onde teve atuação política desde o movimento estudantil. Iara tinha perfil intelectual forte, escreveu textos de formação política e era considerada uma estrategista dentro dos grupos clandestinos.

Por ocasião dos 50 anos da morte de Iara, em 20 de agosto de 2021, na live “Pode Contar sua História”, promovida pelo Instituto de Psicologia da USP, Mariana Pamplona, sobrinha de Iara, produtora e roteirista do documentário “Em Busca de Iara”, lançado em 2014, fez questão de pontuar que sua tia foi fundamental na formação teórica tanto de Carlos Lamarca como de outros militantes de esquerda. Mas esse fato, segundo Mariana, sofreu um “apagamento” proposital, prática comum dos torturadores que humilhavam e diminuíam a importância da participação das mulheres na luta contra a ditadura.

Na versão oficial, Iara teria se suicidado. Conforme consta no Dossiê da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, há diferentes versões sobre a morte da psicóloga. Uma dizia que a morte dela se deu em meio a um tiroteio com os membros do DOI-CODI, que foram até Salvador, no bairro de Pituba, para prendê-la. Em outra versão, Iara teria se refugiado no banheiro de um apartamento vizinho e se matou com um tiro na cabeça para não cair nas mãos dos policiais: “Iara Iavelberg, a fim de evitar sua prisão, ocultou-se em um banheiro do apartamento vizinho; sentindo-se cercada e sofrendo a ação dos gases lacrimogêneos,

suicidou-se”. Enfim, havia contradições desde o início e a certeza de companheiras e companheiros de luta e da família de que o “suicídio” de Iara fora forjado. Essa tese ficou evidente com o depoimento do jornalista Bernardino Furtado à CEMDP, em 1997, em São Paulo. Ele contou que “quando entrevistou o dr. Lamartine Lima (diretor do IML de Salvador), visando obter informações sobre o laudo cadavérico de Lamarca, nessa ocasião o médico lhe relatou o seguinte: O sargento Rubem Otero em consulta médica, em estado grave de saúde, confidenciou-lhe que […] participou do cerco ao apartamento de Iara Iavelberg; que quando já se encontravam dentro do apartamento, sem que tivessem encontrado qualquer pessoa, perceberam que a porta de um dos cômodos se encontrava fechada; o sargento teria disparado uma rajada de metralhadora contra essa porta, não tendo havido qualquer reação dentro do referido cômodo, o sargento chutou a porta e ali encontrou uma mulher agonizando […]. O depoente ouviu de Leônia Cunha, irmã de Lúcia Bernardete Cunha, que era hospedeira de Iara naquela época, a seguinte informação: a senhora Evandir Rocha, conhecida por Vanda, zeladora do edifício naquela época, relatou a Leônia que ouviu Iara gritar que se entregava às forças da repressão, tendo em seguida ouvido os tiros”. A dona do apartamento, onde Iara tentou se esconder dos agentes do DOI-CODI, Shirlei Freitas Silveira, declarou à Comissão dos Mortos e Desaparecidos que Iara foi na verdade morta e que havia três tiros no banheiro, onde Iara teria se matado com um único tiro.

Como de início prevaleceu a versão de “suicídio”, o corpo de Iara Iavelberg foi enterrado na ala dos suicidas do Cemitério Israelita, na capital paulista. Uma desonra à memória dela e à sua família. Os familiares de Iara tentaram exumar o corpo, mas representantes do cemitério não permitiram. No final da década de 1990, a única saída foi entrar na justiça e provar, de uma vez por todas, que Iara tinha sido assassinada pelos militares. Foram anos de luta até que, em 2003, o advogado da família Iavelberg, Luiz Eduardo Greenhalgh, apesar de todas as tentativas contrárias do Cemitério Israelita, conseguiu a permissão para exumar o corpo de Iara. O resultado da perícia ficou pronto em 2005. O médico legista Daniel Romero Munõz, nomeado pela justiça, provou que o tiro que matou Iara era incompatível com o tiro de um suicida. A tese de homicídio, e não de suicídio, foi confirmada pelo médico legista em audiência pública da Comissão da Verdade sobre o caso de Iara, em março de 2013.

No dia 11 de junho de 2006, trinta e cinco anos após sua morte, o corpo de Iara Iavelberg pôde finalmente ser enterrado no jazigo da família, em uma cerimônia conduzida por Henry Sobel, rabino que também se opôs à ditadura militar brasileira e atuou em defesa dos direitos humanos, recebendo enfim todas as honras que lhe haviam sido negadas.

Hoje, a história de Iara Iavelberg integra o conjunto de casos que ilustram as violações de direitos humanos cometidas pela ditadura, sendo lembrada tanto por sua trajetória política quanto pela disputa prolongada por verdade, memória e reparação.

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Heleny Ferreira Telles Guariba, militante que lutou contra o golpe militar de 1964, é uma pessoa desaparecida pelas mãos dos repressores da ditadura militar brasileira. Oficialmente, das 434 vítimas do regime militar de 1964 a 1985, mortas ou desaparecidas, 210 “sumiram”. Pouco mais de trinta cadáveres dessas vítimas foram identificados e devolvidos às suas famílias. Esse é o levantamento do relatório final da Comissão Nacional da Verdade, de 2014. Heleny tinha completado 30 anos quase quatro meses antes de ser sequestrada pelo regime civil-militar.

''Desaparecida em 12 de julho de 1971,
no Rio de Janeiro.''

HELENY FERREIRA
TELLES GUARIBA

Formada em Filosofia, estudou teatro, tornou-se professora de Arte Dramática e diretora de teatro. Aos 29 anos, ao ser presa pela primeira vez, em março de 1970, ela já tinha dois filhos, um de 7 e outro de 3 anos. Da cidade mineira de Poços de Caldas, onde “caiu”, Heleny foi levada ao DOPS de São Paulo e submetida a sessões de choques elétricos nas mãos e braços; precisou ser internada num hospital militar por causa de uma hemorragia decorrente das torturas. Depois, a diretora de teatro foi transferida à torre, do Presídio Tiradentes, na capital paulista, um purgatório perto do inferno pelo qual tinha passado no DOPS. Pelo menos ali, ela estava encarcerada “legalmente”, a família sabia de seu paradeiro. Quando Heleny deixou Tiradentes, um ano depois, as companheiras de prisão sentiram temor por ela. Como relata a jornalista e escritora Luiza Villaméa, em seu livro A Torre, o medo “era que a soltura fosse uma cilada”, pois Heleny era uma militante combativa e isso o regime militar não podia tolerar.

Conforme o relatório do Ministério do Exército, essa mulher de 1,55 metros cruzou o portal de pedras do Presídio Tiradentes no dia primeiro de abril de 1971. Mas sua liberdade durou pouco; três meses depois foi sequestrada por agentes do DOI-CODI, no Rio de Janeiro, no dia 12 de julho de 1971. Em depoimento à Comissão da Verdade do Estado de São Paulo, em 2013, o ex-marido de Heleny, Ulysses Telles Guariba Netto, disse ter recebido um telefonema anônimo em que a pessoa o informava que sua ex-mulher havia sido presa: “Eu recebi um telefonema à noite em casa: ‘Procura ela que ela foi presa’. Repetiram o telefonema no dia seguinte e mais nada”. Ulysses contou à Comissão que seu pai, o general da reserva Francisco Mariani Guariba, “foi para Brasília, bem como ao comando do 1º Exército, no Rio de Janeiro, procurando autoridades e amigos. Todas as informações foram no sentido de que Heleny não havia sido presa, e que provavelmente havia embarcado para o exterior.”

Porém, Inês Etienne Romeu, a única sequestrada política a conseguir sair viva da Casa da Morte, em Petrópolis, um centro clandestino de torturas e extermínio mantido pelo Centro de Informações do Exército - CIE, disse em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, em 2014, ter visto, entre outras pessoas, “uma moça que acreditava ser Heleny” e que ela teria sido torturada por três dias. Quando Inês revelou a existência da Casa da Morte e sua localização, veio à tona que ali os prisioneiros e prisioneiras, antes de entrarem para a lista de desaparecidos, tinham seus corpos esquartejados em vários pedaços, uma forma de impedir a identificação. Os restos mortais desses homens e mulheres, militantes que lutaram contra o regime militar, foram enterrados, em sua maioria, nos arredores da Casa da Morte, segundo Amílcar Lobo, médico, psicanalista e colaborador da repressão. De acordo com denúncias de ex-presos políticos, Amílcar seria responsável por examinar os torturados e dizer se as agressões poderiam continuar ou não.

No relato de Ulysses Guariba à Comissão da Verdade consta que tanto ele quanto seu pai não desistiram de procurar Heleny. Mas foi em vão: “Procuramos em tudo quanto foi canto. Meu pai mandava cartas para os amigos dele no Ministério e todos os cantos, fomos a Brasília, ao Rio de Janeiro, a todos os cantos e não havia notícia dela”. A militante da Vanguarda Popular Revolucionária nunca mais foi vista pelos seus familiares e amigos. Heleny Guariba é uma das pessoas desaparecidas pelo regime civil-militar de 1964 a 1985. Data do desaparecimento: 12 de julho de 1971, no Rio de Janeiro.

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Essas palavras são de Felícia Mardini de Oliveira, mãe de Isis Dias de Oliveira, presa política desaparecida. O depoimento faz parte do Dossiê sobre Isis e consta do arquivo da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos da ditadura militar.

Era o penúltimo dia de janeiro de 1972. Isis tinha 30 anos quando desapareceu depois de ser presa pelo Primeiro Exército, no Rio de Janeiro. Para conhecer um pouco mais de sua história, voltamos ao tempo de militância dessa paulistana, nascida em 29 de agosto de 1941.

''Mãe, se alguma coisa me acontecer, uma companheira dará notícias para vocês’. Eu fiquei muito nervosa com essa informação. No dia seguinte, conforme havíamos combinado, fui ao seu encontro. Esperei por várias horas, Isis não apareceu. Nunca mais a vi.''


ISIS DIAS DE OLIVEIRA

Isis integrava a Ação Libertadora Nacional (ALN), organização revolucionária de luta armada. Chegou a cursar a Faculdade de Ciências Sociais da USP até decidir abandonar os estudos para se engajar de forma mais intensa na resistência armada. Em 1968, fez treinamento de guerrilha em Cuba e retornou clandestinamente ao Brasil no fim de 1969. Mudou-se para o Rio, em 1970 e já estava na mira dos órgãos de repressão.

Sua mãe contou à CEMDP que, com frequência, sua filha a visitava na capital paulista e que outras vezes ela mesma ia ao encontro de Isis na capital carioca.

Foi em 22 de novembro de 1971 que dona Felícia ouviu a voz da filha pela última vez. Nesse dia, ao ser chamada à casa de um vizinho, atendeu a um telefonema da filha, que apenas disse não poder se encontrar naquele momento, mas que estava bem. Dois meses depois, Isis apareceu na casa de conhecidos em Niterói, com um ferimento no pescoço. Fez um curativo, descansou e, no dia seguinte, um amigo a acompanhou até o local onde pegou uma barca. Ele foi a última pessoa a vê-la com vida.

A angústia da família aumentou quando o pai de Isis, Edmundo Dias de Oliveira, recebeu um telefonema de uma mulher alertando sobre a prisão da militante: “Isis foi presa pelo Primeiro Exército. Ela corre perigo de vida”. Soube-se mais tarde que quem ligou foi Aurora Maria Nascimento Furtado, também militante da ALN. Presa em 10 de novembro de 1972, no Rio de Janeiro, Aurora foi torturada e morta.

 

Foram inúmeras tentativas de localizar Isis. Uma advogada contratada pela família impetrou cinco habeas corpus. A resposta só veio no terceiro, afirmando que Isis “encontrava-se foragida”. Sabe-se que passou pelo DOI-CODI/RJ em fevereiro de 1972. Em março, foi transferida para São Paulo, hospitalizada por problemas renais e posteriormente levada para a base aérea de Cumbica, em Guarulhos.

A procura se estendeu a diversos locais de repressão, hospitais e cemitérios do Rio e de São Paulo. A mãe recorreu a organizações internacionais, como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, às autoridades civis brasileiras, e até ao presidente Emílio Garrastazu Médici e sua esposa, em um apelo desesperado. Tudo em vão.

Isis foi julgada à revelia em seis processos. Num deles, acusada de ter assaltado o Hospital da Ordem Terceira da Penitência, no Rio de Janeiro. Em outro, a acusação era ter depredado dois postos de gasolina onde havia cartazes de militantes procurados pela polícia e uma terceira acusação por ter participado do assalto à agência do Bradesco, onde foi ferida sem gravidade. Isis foi absolvida em três processos. Os outros três foram arquivados por “insuficiência” de provas.

Em abril de 1972, a família recebeu informação de uma assistente social de que Isis estava incomunicável na Ilha das Flores, no Rio de Janeiro. Um coronel do Primeiro Exército desmentiu. Depois, surgiram novas informações de que Isis havia passado pela Ilha das Flores, pelo CENIMAR (Centro de Informações da Marinha) e pelo Aeroporto do Campo dos Afonsos, e até que poderia estar em Londres, na Inglaterra, trabalhando como guia de turismo, segundo um conhecido do pai, em fevereiro de 1974.

Dona Felícia, acompanhada de um dos filhos, viajou a Londres e conheceu a brasileira que trabalhava na área de turismo, mas não era sua filha. Depois de toda a peregrinação, a família não encontrou sinais de que Isis estivesse viva. O sentimento era estar no “fogo cruzado” de desinformações calculadas. A saúde dos pais foi seriamente afetada: Edmundo sofreu dois infartos e Felícia apresentou problemas nervosos e disritmia cardíaca.

O desaparecimento de Isis Dias de Oliveira tornou-se uma realidade permanente para sua família. Ela era uma jovem politizada, inconformada com as desigualdades sociais do país, que se engajou na luta contra o sequestro dos direitos civis pelo golpe militar de 1964. O episódio sombrio, iniciado em 30 de janeiro de 1972, permanece sem solução.

Âncora 1
Inês Etienne durante julgamento Foto AGÊNCIA O GLOBOARQUIVO reprodução.jpeg

A frase, registrada no Relatório da Comissão Nacional da Verdade (2014, Volume I), revela a dimensão do trauma e ao mesmo tempo a lucidez de uma mulher que lutou contra a ditadura no Brasil.

''Professor, eu não quero um tostão de indenização. Esse dinheiro de indenização vem do povo e a grande vítima é o povo. O que eu quero é que a Justiça do meu país reconheça oficialmente que eu fui sequestrada, mantida em cárcere privado, estuprada três vezes por agentes públicos federais pagos com o dinheiro do povo brasileiro.''


INÊS ETIENNE ROMEU

Inês Etienne Romeu disse isso ao procurar, em 1989, o jurista Fábio Konder Comparato e relatar os horrores pelos quais passou ao ser sequestrada e encarcerada ilegalmente por 96 dias, sob torturas físicas, sexuais e psicológicas, na Casa da Morte, em Petrópolis - RJ.

 

Em resposta, ouviu de Comparato que ações indenizatórias estavam prescritas, razão pela qual não seria possível buscar reparação financeira, o que, de toda forma, Inês não desejava. O objetivo dela era o reconhecimento jurídico formal dos crimes cometidos pelo Estado. Mesmo assim, e justamente por isso, Comparato ingressou com uma ação de natureza declaratória. Em 2002, a Justiça Federal de São Paulo julgou o pedido procedente, reconhecendo oficialmente, como registra o relatório da CNV: “para o fim de declarar a existência de relação jurídica entre Inês Etienne Romeu e a União Federal, por conta dos atos ilícitos de cárcere privado e de tortura praticados por servidores militares no período compreendido entre 05 de maio e 11 de agosto de 1971, na cidade de Petrópolis, Rio de Janeiro.”

Integrante da luta armada contra a ditadura civil-militar no Brasil (1964–1985), Inês militou, em momentos distintos, na Organização Revolucionária Marxista Política Operária (Polop), no Comando de Libertação Nacional (Colina), na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e, posteriormente, na Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares).

No entanto, quando foi presa, em 1971, já não participava mais de nenhuma dessas organizações, como ela própria declarou: “desde o dia 10 de março deste ano [1971] estava desligada do movimento e me preparava para deixar o país.”

Sem ordem judicial, ela foi presa em São Paulo, no dia 5 de maio de 1971, pela equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury. A estudante de História iria completar, em agosto, 29 anos. A acusação dizia respeito a um fato ocorrido meses antes: a participação no sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher, realizado no Rio de Janeiro, em 7 de dezembro de 1970. Durante a

ação, um dos três agentes da polícia federal que faziam a segurança do embaixador morreu. A VPR reivindicava a libertação de 70 presas e presos políticos, que seriam, após longa negociação, banidos para o Chile. O sequestro durou 47 dias. Libertado, o embaixador se recusou a identificar seus sequestradores.

Levada ao DOPS, na capital paulista, Inês foi espancada no pau de arara e “recebeu choques elétricos na cabeça, nos pés e nas mãos”. No dia seguinte, foi transferida à delegacia do bairro de Cascadura, no Rio de Janeiro. Para escapar do cárcere e de novas torturas, tentou suicídio ao se jogar debaixo de um ônibus. Ferida, foi encaminhada ao Hospital da Vila Militar, depois ao Hospital Carlos Chagas e, por fim, ao Hospital Central do Exército. Mas seu pior martírio estava prestes a começar. Vendada e retirada à força do HCE, no dia 8 de maio, foi levada para a Casa da Morte, centro clandestino criado pelo CIE – Centro de Informações do Exército, onde militantes de esquerda considerados “de destaque” em suas organizações eram torturados e mortos.

Inês foi a única pessoa a sair viva de lá e a última presa política libertada no Brasil, em 1979. Estima-se que ao menos 22 militantes tenham morrido em consequência das torturas ou tenham sido executados no local; todos seguem desaparecidos.

A única sobrevivente da Casa da Morte sofreu, além das torturas físicas e sexuais às quais foi submetida em 1971, um outro tipo de violência: a aplicação do chamado “soro da verdade” (Pentotal), que, segundo ela, foi ministrado pelo médico e psicanalista Amílcar Lobo, conhecido como doutor Carneiro, colaborador da repressão no centro clandestino de Petrópolis. Inês relatou à CNV que, sob o efeito das drogas e das torturas, ouvia também os gritos de outras vítimas, como o advogado Paulo de Tarso Celestino da Silva.

 

Colocado no pau de arara, submetido a choques elétricos e forçado a ingerir sal, Paulo de Tarso implorou por água durante horas, segundo ela. Ele é um dos desaparecidos da Casa da Morte.

Décadas depois, em 2014, já debilitada e com dificuldade de fala devido a um traumatismo craniano causado por uma “suposta” queda em seu apartamento em São Paulo, ocorrida 11 anos antes, Inês ainda encontrou forças para receber os membros da Comissão Nacional da Verdade. Na audiência, identificou, a partir de fotografias, vários agentes da repressão e seus colaboradores, entre eles o próprio Amílcar Lobo.

 

As identificações dos agentes da repressão ganham ainda mais sentido diante do que Inês enfrentou na Casa da Morte, em 1971.

 

Incomunicável por mais de três meses, ela tentou se matar outras três vezes, uma forma de se livrar das repetidas violências físicas, sexuais e psicológicas. A guerrilheira só conseguiu escapar ao fingir colaboração com o regime militar. O ex-sargento Marival Chaves disse, em depoimento à CNV, que ter deixado Inês Etienne sair viva da Casa da Morte foi um erro na avaliação de oficiais do CIE: “Eu ouvi um comentário a respeito, que uma das maiores mancadas que deram foi deixar a Inês Etienne viva”. Opinião corroborada por Paulo Malhães, torturador e ex-agente do Centro de Informações do Exército: “A Inês Etienne saiu e derrubou a casa. Foi a Inês Etienne Romeu que derrubou a Casa de Petrópolis. Derrubou a casa porque ela reconheceu a casa.”

Ao ser solta, Inês pesava apenas 32 quilos. Foi para Belo Horizonte, para a casa de uma irmã, e precisou de atendimento hospitalar. A legalização de sua situação só veio depois: em 7 de novembro de 1971, sua prisão foi oficialmente decretada, e ela passou a cumprir pena no Rio de Janeiro. No ano seguinte, foi condenada à prisão perpétua pelos crimes de sequestro e morte.

Em 1977, uma revisão reconheceu que ela não havia cometido o crime de morte, reduzindo a pena para 30 anos. Inês deixou a prisão em 29 de agosto de 1979.

Inês Etienne sobreviveu à Casa da Morte. Amargou quase oito anos de prisão e, mesmo livre, carregou consigo os horrores do regime militar e do que passou nas mãos de seus carrascos. Apesar de tudo que sofreu, e justamente por isso, dedicou-se a descobrir onde estavam seus torturadores. Convicta de que não poderia se calar, identificou alguns de seus algozes e os denunciou, mesmo correndo riscos de morte. O “acidente” doméstico em seu apartamento, ocorrido onze anos antes da audiência na CNV, nunca foi totalmente esclarecido. O que se sabe é que ela teria recebido um marceneiro para realizar alguns consertos e, após essa “visita”, foi encontrada machucada e ensanguentada. No boletim médico da Santa Casa de Misericórdia, constavam “múltiplos e diversos golpes”. Para familiares e amigos, Inês havia sido mais uma vez vítima daqueles que não queriam que ela continuasse a denunciar os crimes cometidos sob a tutela do Estado militar — afinal, foi graças a suas denúncias que a Casa da Morte foi localizada e sua história de horrores registrada para sempre.

Em 2015, aos 72 anos, Inês Etienne Romeu faleceu, em Niterói, no Rio de Janeiro, vítima de um infarto. Durante toda a sua vida, resistiu ao golpe de Estado de 1964 e dedicou-se a denunciar os crimes da ditadura. Por sua coragem, recebeu do governo brasileiro, em 2009, o Prêmio de Direitos Humanos, na categoria “Direito à Memória e à Verdade”.

 

Uma história marcada pela coragem de insistir em revelar a verdade. E, em respeito a essa memória, é fundamental destacar o quanto Inês resistiu, sob tortura, às constantes ameaças: “Meus carrascos afirmaram que ‘me suicidariam’ na prisão, caso eu revelasse os fatos que ouvi, vi e que me contaram durante os três meses de minha prisão, pois reconhecem que ‘sei demais’. Querem que eu morra ‘naturalmente’, sem que sejam responsabilizados pela morte que me impingirem. Se eu morrer, quero que todas as circunstâncias de minha morte sejam esclarecidas, ainda que demande tempo, trabalho e sacrifício, menos em minha memória, mais em nome da honra do país em que nasci, muito pela decência de minha pátria e de meus compatriotas.”

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